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Maria e Anna. Entre a vida e a morte, a escolha por amar infinitamente

Maria e Anna. Entre a vida e a morte, a escolha por amar infinitamente

Esta não é uma história triste. Porque quem a viveu não a conta assim. Diz da espera de ser pai, “um desejo que nasceu no coração”. Diz do dia no aeroporto, quando a esposa lhe entregou um sapatinho e ele “ficou meio aéreo, com a sensação de que você não tá no seu corpo, sabe?!”. Diz de todos os ultrassons e de como era “lindo a barriga crescer”. Diz ainda de uma coragem absoluta “em um momento que você tem duas saídas: ou você desaba, ou vai pra frente”. Esta não é uma história triste porque, entre a vida e a morte, o professor de inglês e membro do Coração Sagrado da Comunidade Recado, Janmes Wilker Mendes Costa, 39, escolheu amar de maneira infinita.
 

No dia em que soube que ia ser pai de uma menina, Janmes também foi alertado de que a primeira filha poderia nascer com alguma síndrome. Ele e a mulher, Luciana, decidiram não investigar tanto porque havia o risco de um dos exames provocar um aborto. Além disso, com cerca de 14 semanas de vida, a menina parecia dizer algo maior do que tudo pelo “som mais lindo” que Janmes já escutou: o coração de Maria batendo, “forte, a mil por hora!”.
 

No instante daquele diagnóstico, começou a nascer um pai. “Eu tinha que ser muito forte, as duas (mãe e filha) dependiam de mim”, ele retrata. “E eu não encarava a minha filha como um problema”, completa. A paternidade foi ganhando suas nuances com a gravidez. Vieram o enxoval, os brinquedos, o quarto. A Síndrome de Edwards, as pesquisas na internet, as estatísticas. As conversas dele com Maria sobre o amor que nunca mais deixaria de haver, sobre existir Deus e Nossa Senhora, as canções que cantava para a barriga de Luciana. “Vivemos a gravidez de um pai e uma mãe que esperam um filho muito desejado, muito amado. Nada diminuiu”, afirma Janmes.
 

Veio, enfim, o dia do nascimento que a medicina preveniu não acontecer. E, no curto intervalo entre o parto e a transferência para a UTI neonatal, foi o tempo de Janmes falar, olho no olho, o que esperou nove meses para dizer: “Minha filha, você é linda!”. Duas ou três semanas depois, o pai pegou a filha nos braços. “E a gente foi vivendo nossos dias no hospital”, tece.
 

Maria viveu três meses na UTI e 28 dias em casa. “Dentro da limitação dela, a gente foi vivendo tudo o que ela podia. Minha filha vivia arrumada, cheirosa, cheia de lacinho no cabelo. A gente, simplesmente, viveu”, embarca Janmes. Maria foi ressuscitada incontáveis vezes, pelos médicos ou pelo amor inquebrantável do pai: “Todo dia, eu dizia que amava, eu beijava, fazia carinho”. Ele lhe enfeitava, tirava selfies, continuava a cantar para ela. E passava horas ouvindo o olhar da filha: “O olhar dela dizia tudo”, liga-se. 

Certo dia, Janmes compreendeu que ela “adorava ficar olhando pro céu”.
 

E compreendeu também o que Maria sempre quis lhe dizer, desde quando ele ouviu o som forte do coração: “Ela me ensinou a amar sem esperar nada em troca, a amar sem nenhum tipo de medida. E eu só tinha o hoje para amar a Maria. Na verdade, eu só tinha o agora”. Era tudo o que Janmes precisava saber para amar outra vez.
 

Maria o preparou para ser pai também de Anna, que nasceu há um ano e onze meses: deu-lhe o exato valor das coisas. A caçula herdou roupas e bonecas da irmã e ganhou um amor renovado do pai. Hoje, Janmes trabalha menos para brincar e conversar mais com a filha. Ele lhe explica, por exemplo, que ela tem uma irmã que está nas fotografias e nas flores plantadas no jardim na entrada de casa. Anna sorri e o abraça.


Ausência e presença convivem no mesmo espaço de um (coração de) pai. “São dedicações diferentes. Com a Anna, eu brinco e corro muito!”, desdobra-se o professor. “A Maria me ensinou a amar de maneira incondicional. E com a Anna, coloco isso em uma situação prática”, distingue. “O pai tem que construir esse amor porque, se não, corre o risco de não criar esse laço. O pai é essa figura de força, mas tem que ser também a figura de amor”, une.
 

Esta não é uma história triste. Porque não pode ser triste uma história em que o amor se sobrepõe - seria incoerente com o próprio amor, entende? Como pode ser triste a história de um amor tão imenso, capaz de alcançar o céu? Porque assim é também o amor de pai, demonstra Janmes.

Por Ana Mary C. Cavalcante (TEXTOS)
Por Julio Caesar (FOTOS)

 

FONTE: Jornal O POVO

LINK: http://www.opovo.com.br/app/opovo/dom/2016/08/13/noticiasjornaldom,3647014/maria-e-anna-entre-a-vida-e-a-morte-a-escolha-por-amar-infinitamente.shtml


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