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"Exposição do Santander - Qual a posição dos artistas católicos?"

 

No último dia 10 de setembro de 2017 o instituto Santander Cultural, da cidade de Porto Alegre/RS encerrou a exposição “Queermuseu – Cartografia da Diferença na Arte Brasileira” que tinha sido aberta em 15 de agosto e estava programada para continuar até 8 de outubro, exibindo 264 obras que, segundo a entidade, “abordavam questões de gênero e diferença “. A referida exposição gerou grandes e fortes reações contrárias da opinião pública, pois seu conteúdo supostamente poderia estar fazendo apologia à pedofilia, zoofilia e escárnio de símbolos católicos.

 Em respostas e respeito a centenas de artistas católicos que se manifestaram e escreveram para o nosso site nos indagando sobre o tema, vamos agora responder alguns questionamentos que foram abordados em grande parte das perguntas. Para isso pedimos para dois membros da Comunidade Recado compromissados responderem as seguintes questões:

1- Este tipo de exposição que aborda temáticas como a apologia (direta ou indireta) à pedofilia, bem como o escárnio à religião, pode ser considerada arte? Se sim, que tipo de arte?

2- Está correto o posicionamento dos Cristãos de protestarem contra o material solicitando ao Centro Cultural a interrupção da exposição?

3- Questionar a fé de outrem ou até mesmo utilizar elementos de sua natureza como forma de protesto é uma prática antiga na arte? O que, em outros momentos, foi feito por parte dos cristãos em resposta a estas iniciativas?

 Resposta de Leonardo Falconeri membro compromissado da Comunidade Recado, artista e psicólogo:

1- “Primeiramente é complicado julgar a exposição com base apenas em imagens e informações oriundas da Internet. Outro problema é em atribuir uma intencionalidade determinada ao autor de uma obra de arte. Não se sabe com que intenção um autor faz a sua obra de arte. Diante disso tudo, mesmo sendo obras de arte que tratem da temática religiosa de uma forma não tradicional não se pode afirmar universalmente que não é arte. Nenhum indivíduo pode afirmar de forma universal o que é ou não é arte. O que ele pode é, segundo seus critérios, não reconhecer determinada expressão artística como sendo arte. Mas, essa é uma afirmação particular. Por mais que eu não goste de uma determinada obra de arte não tenho poder de definir se ela é ou não arte”.

 

2 – “Se o Cristão não se sente bem com o conteúdo de alguma obra de arte a primeira coisa que ele deve fazer é não assistir essa obra de arte. Acredito que todos possuem a liberdade de protestar contra qualquer obra de arte por quaisquer motivos. Como os artistas e curadores tem a liberdade de cederem ou não aos protestos. Defendo os protestos pacíficos, mas com uma paz que não precisa ofender e agredir verbalmente quem pensa de forma diferente da minha. Se alguém ofende o meu credo e a minha religião, ofender de volta não é a atitude mais cristã”.

3 – “A arte sempre foi uma ferramenta de subversão. E já atingiu a temática religiosa anteriormente (posso citar um clipe da cantora Madonna da música “Like a prayer” e o filme de Scorcese “A última tentação de Cristo” que me lembre rapidamente). O que foi feito na época não foi muito diferente do que aconteceu agora com a exposição QueerMuseu. Talvez hoje tenha um peso maior por conta da internet e das redes sociais. Os artistas foram criticados e suas obras boicotadas e proibidas de serem exibidas em alguns países. Um artista mexer com uma fé de tantas pessoas vai ser sempre polêmico e alvo de muitas críticas.

Agora as resposta de Valéria Tavares doutoranda em educação e professora, membro compromissada da Comunidade Recado:

                1- “Nenhum material pode fazer apologia ao crime, pedofilia é crime, portanto tal manifestação dificilmente pode ser considerada como arte. O mesmo podemos dizer quanto ao escárnio à religião, já que a liberdade religiosa é um direito constitucional e o respeito à crença religiosa um dever de todos. Isso não vale apenas para os cristãos, mas para todas as crenças religiosas, o que, às vezes, é esquecido por alguns.

                2- "O protesto é justo, e devemos sempre protestar, principalmente buscando esclarecer as pessoas sobre os erros que estão presentes no objeto do protesto, seja uma exposição, um livro, um filme, uma novela etc. Solicitar a proibição ou interrupção, não me parece o melhor caminho, muitas vezes é um incentivo, propaganda gratuita, além de não educar as pessoas. Isso se não for apologia a um ato criminoso, como pedofilia, neste caso, deve-se entregar a polícia. Valeria não respondeu a terceira questão.

 

Então para esclarecermos os questionamentos e depois dessas duas opiniões, lembramos que é necessário sabermos entender corretamente o que é “Liberdade de Expressão”, ela não significa licença para se fazer qualquer coisa, significa que aquele ou aquela que vai expressar a sua ideia, sua imagem ou seu texto ele faz o que quiser, ninguém pode impedi-lo de fazer, mas ele ou ela assume a consequência se aquilo por acaso colidir com a legislação coletiva existente (Constituição).Para encerrarmos segue abaixo um trecho do apelo feito pelo na época Papa João Paulo II e agora Santo, para nós artistas Cristãos em (1999):

Aos Artistas

 (A todos aqueles que apaixonadamente procuram novas « epifanias » da beleza para oferecê-las ao mundo como criação artística).

“Com esta Carta dirijo-me a vós, artistas do mundo inteiro, para vos confirmar a minha estima e contribuir para o restabelecimento duma cooperação mais profícua entre a arte e a Igreja. Convido-vos a descobrir a profundeza da dimensão espiritual e religiosa que sempre caracterizou a arte nas suas formas expressivas mais nobres. Nesta perspectiva, faço-vos um apelo a vós, artistas da palavra escrita e oral, do teatro e da música, das artes plásticas e das mais modernas tecnologias de comunicação. Este apelo dirijo-o de modo especial a vós, artistas cristãos: a cada um queria recordar que a aliança que sempre vigorou entre Evangelho e arte, independentemente das exigências funcionais, implica o convite a penetrar, pela intuição criativa, no mistério de Deus encarnado e contemporaneamente no mistério do homem. Cada ser humano é, de certo modo, um desconhecido para si mesmo. Jesus Cristo não Se limita a manifestar Deus, mas « revela o homem a si mesmo ».[23] Em Cristo, Deus reconciliou consigo o mundo. Todos os crentes são chamados a dar testemunho disto; mas compete a vós, homens e mulheres que dedicastes a vossa vida à arte, afirmar com a riqueza da vossa genialidade que, em Cristo, o mundo está redimido: está redimido o homem, está redimido o corpo humano, está redimida a criação inteira, da qual S. Paulo escreveu que « aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus » (Rm 8,19). Aguarda a revelação dos filhos de Deus, também através da arte e na arte. Esta é a vossa tarefa. Em contato com as obras de arte, a humanidade de todos os tempos — também a de hoje — espera ser iluminada acerca do próprio caminho e destino”. (Papa João Paulo II, 1999 – Carta aos Artistas). Caríssimos então nos concentremos em responder a altura ao apelo e a missão que nos é própria de artistas cristãos, pois “Quem não ajunta comigo, dispersa”. (Lucas 11, 23b).

Louvor e Alegria!