Teatro: lugar da verdade

Teatro: lugar da verdade

Teatro é lugar da verdade. Da sinceridade. Eu não posso interpretar um personagem se eu não sou 100% sincero. Se eu não me entrego totalmente àquilo que eu faço. Se eu abandono com facilidade, se eu não me esforço, se eu me contento com o primeiro resultado. Se eu aperto um botão e simplesmente digo a minha fala decorada. Cada apresentação teatral deve ser o cumprimento de um ato, e não simplesmente a execução de uma tarefa. O teatro exige que nós nos entreguemos sempre com a mesma intensidade inicial, como se sempre fosse a primeira vez.

Um dos maiores perigos do ator é o hábito. Ele já conhece o seu texto, já conhece os “movimentos” do seu personagem, ele já assimilou perfeitamente o seu papel e após algumas apresentações ele já sabe inclusive o que funciona ou não, cenicamente falando. O que o público gosta ou não. E ele vai transformando o seu espetáculo numa grande sequência de automatismos sem vida. O grande desafio do ator é reencontrar a vida do seu personagem a cada apresentação. É viver o papel sempre como uma grande novidade. Permitir que o seu personagem toque cada vez mais profundamente o seu próprio ser e partilhar com o público algo de profundo e intenso. E não algo superficial fruto da boa memorização de sua fala e a execução perfeita das atitudes do seu personagem. Não é disso que se trata o teatro.

Ator não é aquele que é capaz de memorizar com perfeição sua fala, que diz o seu texto com uma elocução impecável ou aquele que já adquiriu artimanhas suficientes para “interpretar” o seu papel. Teatro é vida. Teatro são horas de trabalho, meses, anos para se alcançar a tão almejada “verdade cênica.” O bom ator não é aquele que interpreta o seu personagem, mas aquele que o vive. Viver aqui não significa confundir-se com ele, se assim fosse você nunca poderia interpretar um mendigo sem antes passar pela mesma situação. Viver significa doar-se, significa trabalhar duro para abandonar os velhos clichês e encontrar a corporeidade exata do seu personagem.

O bom ator é aquele que é capaz de sempre encontrar algo novo em seu personagem, algo que ainda não lhe foi revelado. É aquele que é capaz de analisar o seu trabalho e perceber os caminhos errôneos que foram tomados e tem a coragem de buscar de forma ainda mais aprofundada, abandonado as superficialidades e dedicando o tempo que for necessário para a construção do seu papel. Com compromisso, seriedade e sinceridade. Unindo “o rigor ao dom”.[1]

 

Por Débora Moreira, Membro Compromissado da Comunidade Recado



[1] Referencia de Grotowski ao ator Cieslaka. In : RICHARDS, Thomas. Travailler avec Grotowski sur les Actions Physiques. Arles : Actes Sud, 1995. p. 43.