Série – O artista católico e os Conselhos Evangélicos

Série – O artista católico e os Conselhos Evangélicos

Artista, católico e obediente?

 

O artista geralmente tem a fama de ser “mandão”, orgulhoso e nada obediente. Isso se dá muitas vezes pelo conceito de liberdade que cada um toma para si e pela sensibilidade desfigurada no ser artista. O artista tem sim uma sensibilidade muito aguçada, mas isso não tira dele a capacidade de viver a obediência, na verdade essa sensibilidade quando canalizada em Deus, potencializa no artista a capacidade de viver concretamente as virtudes cristãs.

O artista católico também tem o seu “eu artista” e uma grande sensibilidade. Contudo, o seu conceito de liberdade se difere da concepção de liberdade vivida no meio secular, onde esta significa fazer o que se quer, como e quando se quer. Para o artista católico a liberdade é um conceito diretamente ligado à livre escolha de viver o seguimento de Cristo assumindo suas renúncias e consequências. Sou livre para ser de Deus e para viver os sacrifícios dessa escolha. Mas o que é a vivência do Conselho Evangélico da Obediência na vida do artista católico?

Obedecer significa ser dócil, ser submisso e, ser submisso significa reconhecer-se pequeno e dependente. Sendo assim, é de suma importância compreender que Deus é o Senhor soberano de todas as coisas, inclusive de sua arte. A primeira obediência enquanto cristãos é a Deus.

Como artistas católicos, é preciso ter bastante claro que a obediência a que se é chamado a viver parte primeiramente de um chamado de Deus e, como tal, é primeiramente a Ele dedicada. Nessa dinâmica, é fundamental se reconhecer pequeno e dependente de Deus. O fato de ser artista, não o isenta de submeter-se inteiramente ao senhorio de Deus, mesmo diante de um ego que muitas vezes, se não na maioria delas, se coloca maior até que o próprio artista. O eu artista precisa ser submisso, se reconhecer pequeno e dependente de Deus, reconhecendo que o próprio dom não te pertence, mas vem de Deus e a Ele pertence.

A obediência requer uma escuta da voz de Deus e a procura da vontade do Pai. Como artista é necessário ter sempre uma escuta atenta da voz de Deus, pois ela revela o Seu querer e indica o caminho a seguir. Essa escuta e procura pela vontade de Deus se dá por meio de uma vida de oração concreta e constante. O artista que não reza, não escuta de Deus e se não escuta de Deus tende a fazer uma arte unicamente humana e sem unção. O Espírito Santo age na liberdade que se dá a Ele pela intimidade. Se o seu relacionamento com Deus é alimentado apenas pelas missas dominicais, sua intimidade com Deus é superficial. Dessa forma, sua arte pode até ser bela, mas não resplandece a beleza de Deus.

Como vimos anteriormente, a obediência passa sobretudo pela liberdade, pois não se é obrigado a fazer nada nem por si mesmo e nem por Deus. Deus não nos obriga a nada. Mas, a partir do momento em que se decide por responder ao Seu chamado, assume-se também os sacrifícios e renúncias da escolha que se fez. Em Sua Palavra Jesus nos diz: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Mt 16, 24). Para seguir a Cristo é preciso renunciar às coisas do mundo, mas renunciar também a si mesmo, suas próprias vontades e concepções para abraçar verdadeiramente a cruz. Para isso é necessário se fazer obediente como o próprio Cristo foi. Um artista desobediente, que não respeita e nem acolhe a voz de Deus que fala pelas suas autoridades e que não consegue compreender a sua arte dentro das normas e preceitos da Igreja é um artista preso às suas próprias vontades e que ainda não conseguiu entender a dimensão da unidade e autoridade de Deus.

Obediência exige amor e é esse amor que faz o artista verdadeiramente livre em Deus. A obediência é doação e expressão do amor filial ao Pai. Se não tomamos posse da paternidade de Deus ficará muito difícil compreender a Sua vontade. Quer saber o quanto amadureceu na sua relação filial com Deus Pai? Observe a sua capacidade de viver a obediência em todas as suas dimensões.

A obediência é também o exercício diário de confiança. Deus é Pai e como tal, quer sempre o melhor para todos nós. Quando confiamos a obediência se torna mais leve, pois retira do coração as vãs preocupações e traz o domínio de si frente às fraquezas e limitações humanas. A obediência a Deus diz da nossa verdadeira capacidade de amar a Deus e aqui entra um aspecto muito difícil para todos, mas principalmente para o artista – o sacrifício da vontade própria! Quando falamos de submissão isso não quer dizer apenas fazer-se pequeno e dependente, mas quer dizer também, ofertar a própria vontade em função da vontade de Deus. Querer o querer de Deus é abrir mão de sua própria vontade! Para o artista é se colocar nas mãos de Deus como uma tela em branco para que Ele faça nela a arte que Ele assim desejar.

É preciso acolher a vontade de Deus no exercício da sua arte. Você, artista católico, já se perguntou qual a vontade de Deus para o seu ser artista e para a sua arte? Não se pode seguir no exercício de sua arte dentro da Igreja apenas por suas vontades humanas. Deus tem um propósito ao te chamar a arte e a evangelização e a vivência do Conselho Evangélico da obediência te ajudará a encontrar-se com a verdade de sua arte enquanto cristão.

 

Por Laianne Viana, Membro da Comunidade Recado

 

 

Referências

KEARNS, Lourenço. Teologia do voto de obediência. Aparecida, SP: Editora Santuário, 2002.

CANTALAMESSA, Raniero. Obediência. São Paulo, SP: Editora Loyola, 5º edição. 1992.

 

 

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