Série – Coordenando Artistas

Série – Coordenando Artistas

Eu peco muito. Mereço ser coordenador?

 

Quando recebemos um cargo de liderança, sempre passa em nossa cabeça, em algum momento, o porquê dessa eleição. Ainda que saibamos que Deus é Deus e Ele tudo pode em nós, sempre nos questionamos ao ver em nós a quantidade de pecados que possuímos e a nossa miséria pessoal. E esse caso fica mais difícil quando olhamos para os nossos talentos. Alguns coordenador são os que tem o talento mais apurado, mas outras vezes, o coordenador não é o melhor em técnica e ai ele se pergunta também o porquê de ter sido escolhido em detrimento de tantos melhores que ele. Bem, a parte boa é que isso não passa apenas pela sua cabeça, mas muitos já pensaram nisso. Cabe agora a nós entendermos o porquê!

No texto anterior [clique aqui] falamos um pouco sobre nossas ovelhas e suas dificuldades com o pecado, que não são um problema apenas delas, mas de todos nós, humanos. E, quando olhamos para nós, que temos funções de lideranças, o olhar “maltrata” mais ainda, pois vemos nossas misérias e, não entendemos como Deus pode nos dar uma coordenação, porque somos muito pecadores. Graças a Deus o pensamento de Deus não é como o nosso! Pois, se assim fosse, ninguém se salvaria nem seria digno de servi-lo na terra.

“Todos somos fracos, mas a ninguém tenhas por mais fraco que a ti mesmo.”1. Sendo assim, ainda que consigamos ver, em decorrência da nossa função de coordenador, as fraquezas de nossas ovelhas, não podemos cair no erro de nos julgar melhor ou mais forte que elas. Nossa função não nos garante santidade, santidade devemos buscar como todos os outros, nas lutas e desafios do dia a dia.

Quando nós, coordenadores lutamos contra o pecado e suas investidas em nossas vidas e em nossos ministérios, damos força às nossas ovelhas para que elas também façam o mesmo. Da mesma forma, quando nos deixamos levar pelo pecado, podemos nos tornar pedra de tropeço aos que o senhor nos confiou a cuidar. Desse modo, surge a necessidade da vida fraterna, do olhar para nós e nossas faltas e buscar mudar, pela nossa santificação e pelo outro, pelo amor que temos a Deus e o desejo de servi-lo.

“Enquanto nos conservamos de pé, não podemos desculpar nem mesmo compreender que os outros caiam; sentimo-nos escandalizados com suas quedas. E quantas vezes um certo orgulho, disfarçado de zelo, não nos leva à indignação! Basta, porém, que uma falta semelhante nos lance por terra para vermos como a nossa severidade se transforma bem depressa em compaixão.”2. Ou seja, somos coordenadores e, muitas vezes, Deus permite que caiamos e que tenhamos imperfeições porque só assim vamos conseguir ter um olhar de misericórdia para com as nossas ovelhas, porque nos percebemos como elas: necessitados da graça de Deus.

Somos pecadores e fracos, mas Deus quer precisar de nós assim, como somos. E essa graça deve gerar louvor em nossos corações, que se concretize em serviço. Que, ao pecar, não nos apedrejemos dos nossos próprios julgamentos, mas que tenhamos um olhar de esperança em um Deus que nos ama e nos aceita de volta. Que saibamos contar com a misericórdia de Deus e aprendamos com nossos erros, para que saibamos amar nossas ovelhas e ser misericordiosos com elas.

Devemos ter como exemplo de líder São Pedro. Ele foi chamado por Jesus para que O seguisse e assim o fez. Ele prometeu que não abandonaria Jesus, que não deixaria que o fizessem mal e negou Jesus três vezes, como o seu próprio Mestre tinha dito que ele faria. Pedro chorou amargamente ao perceber sua miséria e depois teve uma experiência com a misericórdia de Deus que o salvou e o confiou a missão de apascentar as ovelhas que Ele o confiou. Jesus o fez reconhecer suas próprias faltas para que ele pudesse também reconhecer as faltas de suas ovelhas e perdoá-las. É o que nos ensina São João Crisóstomo: “[...] o homem [...], conhecendo a fragilidade humana por experiência própria, se condói naturalmente ao descobri-la nos outros. [...] Deus permite que os depositários da sua autoridade na Igreja cometam faltas, a fim de que a consciência das suas quedas os torne mais humanos com os seus irmãos. [...] Deus permitiu a queda de Pedro, coluna da Igreja, porto da fé, doutor do universo, para ensiná-lo a tratar os seus irmãos com misericórdia [...].”3.

É disso que precisamos: aprender com as nossas fraquezas e experimentar da misericórdia de Deus para que possamos ser misericordiosos com nossas ovelhas e, assim, podermos ser coordenadores de ministérios cheios de misericórdia, porque muito dela experimentamos. Pecadores sim, mas reconciliados constantemente com a misericórdia de Deus.

 

Por Cláudia Pessoa, Membro da Comunidade Recado

 

1. Imitação de Cristo, Livro IV, cap. 2.

2 e 3. TISSOT, Joseph. A Arte de aproveitar as próprias faltas. 3. ed. São Paulo: Quadrante, 2003. (Coleção Vértice; 31). Tradução de: Emérico da Gama. p. 63-64.

 

 

 

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