Por que as letras dos cantos que não têm letra prevista no Missal devem ser inspiradas na Palavra de Deus?

Por que as letras dos cantos que não têm letra prevista no Missal devem ser inspiradas na Palavra de Deus?

“Que vos agrade o cantar dos meus lábios e a voz da minha alma; que ela chegue até vós, ó Senhor, meu Rochedo e Redentor!” (Sl 18 B, 15)

Em 30 de setembro, celebramos a memória de São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja. Foi ele que, lá pelos séculos IV e V, traduziu a Bíblia do grego/hebraico para o latim. A escolha do mês de setembro como mês da Bíblia, portanto, não foi feita ao acaso.

Foi assim, então, pensando no mês da Bíblia, que selecionamos essa questão, surgida em decorrência da formação aqui publicada sobre a escolha dos cantos da Missa.

Ah, queridos irmãos e irmãs, certamente seria possível escrever um livro apenas refletindo no porquê da necessidade de inspiração na Palavra de Deus das letras dos cantos de entrada, ofertas, comunhão e outros que não têm letra prevista no Missal.

São Paulo, dirigindo-se aos Efésios, diz algo muito significativo também para nós, discípulos e discípulas de Jesus que abraçamos a fé nos dias de hoje: “Já não sois mais estrangeiros nem migrantes, mas concidadãos dos santos. Sois da família de Deus. Vós fostes integrados no edifício que tem como fundamento os apóstolos e os profetas, e o próprio Jesus Cristo como pedra principal. É nele que toda a construção se ajusta e se eleva para formar um templo santo no Senhor. E vós também sois integrados nesta construção, para vos tornardes morada de Deus pelo Espírito.” 1

Somos Igreja, templo santo no Senhor! Cristo é a pedra principal! Temos apóstolos e profetas como fundamento!

Ora, os nossos bispos é que são os sucessores dos apóstolos. Em alguns trechos do documento de Aparecida, eles nos falam do que é ser bispo: “Os bispos, como sucessores dos apóstolos junto com o Sumo Pontífice e sob sua autoridade, com fé e esperança aceitamos a vocação de servir ao Povo de Deus, conforme o coração de Cristo, o Bom Pastor. [...] O Senhor nos chama a promover por todos os meios a caridade e a santidade dos fiéis. [...] e a velar e promover com solicitude e coragem a fé católica.” 2

Sob o impulso do Espírito, no atendimento a essa vocação, nossos bispos, reunidos em concílio, nos explicitaram o seguinte quanto à letra dos cantos para nossas celebrações: “Os textos destinados ao canto sacro devem estar de acordo com a doutrina católica e inspirar-se sobretudo na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas.” 3 E, ao fazerem uma relação entre a Palavra de Deus e as próprias fontes litúrgicas, nos informam: “É enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração da Liturgia. Porque é a ela que se vão buscar as leituras que se explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a sua capacidade de significação as ações e os sinais.” 4

Se as próprias preces, orações, ações e sinais que utilizamos em nossas celebrações têm espírito, inspiração e significado que provêm da Sagrada Escritura, ou seja, da Palavra de Deus, porque haveria de ser diferente com as letras dos cantos utilizados nessas mesmas celebrações?

É o cuidado de nossos pastores com a solidez de nossa fé e, consequentemente, com nossa santificação, que os impulsiona a orientar-nos, a todos nós, agentes de pastoral litúrgica, ministros de música, compositores, padres, toda Igreja, enfim, à necessidade de utilizarmos na Santa Missa cantos cuja inspiração tenha origem na Palavra. Não bastam cantos que expressem interpretações e sentimentos religiosos pessoais. É preciso revesti-los da força daquele que é a própria Palavra de Deus que se fez carne e habitou entre nós. Só Ele tem palavras de vida eterna para nos oferecer!

O canto gregoriano, referência permanente para nós, resolveu isso de modo muito eficaz com antífonas de entrada, ofertório e comunhão tiradas diretamente da Sagrada Escritura às quais se associam salmos, esta última sempre relacionada ao evangelho do dia, para melhor evidenciar a íntima relação entre a Palavra proclamada na mesa da Palavra com o Mistério Eucarístico celebrado no altar: “Espiritualmente alimentada nestas duas mesas, a Igreja, em uma, instrui-se mais, e na outra santifica-se mais plenamente; [...] a palavra divina que a Igreja lê e anuncia na Liturgia conduz, como a seu próprio fim, ao sacrifício da aliança e ao banquete da graça, isto é, à Eucaristia.”  5

Ajuda-nos, portanto, Senhor, a obedecer a nossos pastores, ou seja, a ouvi-los com atenção – ouvi-los com adesão – buscando incansável e amorosamente as melhores letras inspiradas em tua Palavra. Somos concidadãos dos santos. Somos tua família, Senhor. Queremos firmemente ser tua morada!

 

Por André Zamur, Membro da Comunidade Recado.

 

Referências

1. Ef 2,19-22

2. Documento de Aparecida, 186-187

3. Sacrosanctum Concilium, 121

4. Sacrosanctum Concilium, 24

5. Introdução ao Lecionário da Missa, 10

 

 

 

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