Onde estão os cânticos de louvor?

Onde estão os cânticos de louvor?

Como já apresentei em um texto anterior, o Catecismo afirma que, “Criado à imagem de Deus, o homem exprime também a verdade de sua relação com o Deus Criador pela beleza de suas obras artísticas”, ou seja, uma obra artística é resultado de uma relação. Se não há relação, não há obra! A questão aqui é a intimidade! Nossa expressão artística é fruto da nossa intimidade!

Isso significa, antes de tudo, uma coisa muito séria: Se o número de canções de louvor diminuiu é porque na realidade o louvor também diminuiu!

Se em nosso relacionamento com Deus não há louvor algo está errado!

Nós fomos escolhidos e predestinados para o louvor da glória de Deus, segundo o que fala o Apóstolo Paulo aos Efésios (Ef 1, 12), e se nós nascemos para isso, o primeiro lugar onde deveríamos manifestar nossa “vocação” deveria ser nas nossas composições e expressões artísticas.

Pensando e repensando nesse assunto cheguei a um diagnóstico de três problemáticas que podem abafar em nós esse “dom natural do louvor”. São elas:

 

O conceito errado de Deus

Todo relacionamento vai se desenrolar conforme o conceito que nós temos da pessoa com a qual nós nos relacionamos. Alguns relacionamentos são por interesse, outros se dão por obrigação, outros por medo e coação, outros, porém, se dão pelo amor, pela gratuidade, pela identificação, enfim, cada relacionamento se dá conforme o que conhecemos do outro, pensamos do outro e, ainda, conforme o pretexto e intenção que nos levam a nos relacionarmos com outrem. Ou seja, se temos um conceito de Deus como patrão, por exemplo, iremos nos relacionar com Ele como seus empregados, vivendo a base de serviços e metas. Se temos um conceito de Deus como um castigador, nossa relação com Ele se dará por meio do medo, do sentimento de perseguição, pela via do “radicalismo”. Por outro lado, se pensamos Deus como um “bolachão” que nos permite fazer tudo, porque nada é errado, nos relacionaremos com Ele a partir da libertinagem que é uma falsa liberdade. Talvez, ainda são poucos os que conhecem o Deus Pai que é apresentado por Cristo e com o qual somos convidados a nos relacionarmos com Ele como seus filhos! O louvor é o reconhecimento do que Deus é e também do que Ele não é, mas que muitas vezes nos foi erroneamente apresentado! Para o louvor fluir, é preciso quebrar os conceitos errados que temos de Deus!

 

Conceito falho sobre o louvor

Muitas vezes perguntamos às pessoas o que é louvor e percebemos que pela falta de conhecimento o louvor é limitado somente a duas coisas:

 

1º) O louvor é o momento de animação do grupo de oração.

Não. Louvor é muito mais que um momento de animação com músicas alegres e dançantes dentro do grupo de oração, é o momento de nos voltarmos para Deus para dar a Ele o reconhecimento de quem Ele é em nossa vida. Pode acontecer que esse momento de “oração de louvor” seja, conduzido com músicas animadas e dançantes, mas não precisa ser assim necessariamente assim, existem belíssimas canções de louvor que são tranquilas e muito profundas. Um momento de animação pode conter em si louvores a Deus, mas nem todo momento de louvor precisa conter cantos animados e dançantes. A animação é, sobretudo, um momento de fraternidade e o louvor muitas vezes será usado aí como uma chave para abrir os corações à ação de Deus.

 

2º) O louvor é o momento de agradecermos a Deus.

Pois bem, o Catecismo da Igreja nos ensina que “o louvor é a forma de oração que mais imediatamente reconhece que Deus é Deus! Canta-O por Si próprio, glorifica-O, não tanto pelo que Ele faz, mas, sobretudo porque ELE É.1 Agradecer a Deus é umas das inúmeras formas entre as quais nós podemos louvar a Deus. Louvar é mais que agradecer! Inclusive o louvor vai além da oração, ele se converte em ações concretas de santidade. Enfim, o louvor é uma nova forma de viver!

Para comporem-se canções de louvor, é preciso antes saber o que é isso, é preciso orar o louvor, ser hábil no louvor e viver o louvor, para que, enfim, ele se torne música em nossos lábios!

 

Influências em nosso culto original

Nós somos católicos e temos uma rica tradição de orações, canções e expressões artísticas frutos de uma linda história de mais de dois milênios entre Deus e sua Igreja, de onde brotam textos, documentos, poesias e muitas vezes nós abandonamos todo esse rico tesouro para abraçar “somente” costumes e tradições de outras comunidades eclesiais não católicas, que trazem também lindas tradições, mas que não são as nossas, que não trazem a nossa identidade católica e que não conseguem conter em si toda a particularidade do culto católico, desfigurando assim o nosso louvor. Sem contar que muitas dessas influências acabam virando modismo ou puras estratégias de marketing para vender a música religiosa, como se ela fosse negócio, como se precisássemos compor aquilo que está na moda e, como louvar não está na moda e músicas de louvor não levantam lucro, logo as deixamos de lado.

 

Nós precisamos urgentemente resgatar em nós o dom do louvor! Nós precisamos compor canções para sustentar o louvor2 da Igreja que perdura há tantos anos. A abertura da Constituição Apostólica do Papa Paulo VI, Laudis Canticum nos diz: “O cântico de louvor, que ressoa eternamente nas moradas celestes, e que Jesus Cristo, Sumo Sacerdote, introduziu nesta terra de exílio, foi sempre repetido pela Igreja, durante tantos séculos, constante e fielmente, na maravilhosa variedade das suas formas”. É esse canto de louvor que nós somos convidados a entoar em primeiro lugar, pois é ele a música original, trazida por Jesus das moradas celestes e que hoje nós somos convidados a sustentar com nossa arte. Precisamos viver uma intimidade com o louvor que nos leve a “recuperarmos na música o espaço que pertence a Deus e foi roubado”3.

 

Por Felipe Zanotto Reigota, Membro da Comunidade Recado.



1. Cat §2639.

2. Salmo 32, 3.

3. Nº 66 das Regras de Vida Recado.

 

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