O sentido do jejum é a esmola

O sentido do jejum é a esmola

Estamos vivenciando mais uma Quaresma e, a cada ano, estabelecemos nossos propósitos de jejuns e penitências. Muitas vezes continuamos com os mesmos, por comodismo ou por não termos ainda a coragem de realmente atendermos à voz de Deus naquela renúncia que sabemos que Ele nos pede. Porém, também existem as situações em que refletimos, rezamos e aceitamos o desafio de ir além, de vivermos esse tempo quaresmal buscando nos purificar, nos libertar daquilo que nos aprisiona, nos oprime e ocupa em nós o espaço que deve ser, em primeiro lugar, de Deus.

Quantos de nós dizemos: “nesta Quaresma não vou tomar refrigerante”, “não vou comer chocolate ou sorvete ou doces...”, “não vou comer pão”, “não vou comer carne por quarenta dias”, “não vou consumir nenhuma bebida alcóolica”, “não vou comprar roupas, sapatos”, “não vou ‘lanchar’ fora de casa”... E tantos outros jejuns e penitências que só nós e Deus sabemos... E o que tem errado com esses propósitos? A princípio, nada. O problema começa a existir quando não os praticamos com o verdadeiro sentido que Deus nos pede que eles tenham.

“Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? - diz o Senhor Deus: É romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos, e quebrar toda espécie de jugo. É repartir seu alimento com o esfaimado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir os maltrapilhos, em lugar de desviar-se de seu semelhante”¹.  Meditando sobre isso, podemos parar e refletir com alguns exemplos: em algum tempo quaresmal, os nossos propósitos de jejuns e abstinências foram revertidos em atos concretos de caridade? O dinheiro com que compraríamos algum alimento, roupas, sapatos, bebidas já usamos alguma vez para comprar uma refeição, uma cesta básica ou uma vestimenta para alguém que esteja necessitando?

Percebemos, portanto, que o verdadeiro sentido do jejum não deve parar em nós, não deve ter como fim último a nossa mortificação e purificação... Ou ser um tempo de economia, de dieta. Deve, acima de tudo, nos abrir à generosidade, à prática das obras de misericórdia, à doação concreta ao próximo através da esmola, a sermos socorro para os outros em suas necessidades corporais e espirituais.

“A esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna. É também uma prática de justiça que agrada a Deus”².  E se O agrada, eleva a nossa alma a Ele, nos leva a viver uma nova experiência de abertura, abandono, liberdade e doação ao outro. Assim, o jejum que praticamos deve despertar em nós uma profunda alegria, no sentido de, além de sermos nutridos com a oração, em uma intimidade profunda com Deus, também nos conduz a sermos canais livres da Sua providência para os pobres, para os que têm fome e sede de alimento e de justiça.

Tenhamos os ouvidos atentos, o coração aberto, a disposição, a ousadia e o firme propósito de atendermos à voz de Deus que nos diz: “Dá esmola dos teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, Deus tampouco se desviará de ti. Sê misericordioso segundo as tuas posses. Se tiveres muito, dá abundantemente; se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração. Assim acumularás uma boa recompensa para o dia da necessidade: porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas. A esmola será para todos os que a praticam um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo”³.

Que, a partir de hoje, sejamos direcionados, iluminados pela luz de Cristo a encontrarmos o verdadeiro sentido do jejum. E, impelidos por Sua voz, sejamos movidos pela esperança de sermos alcançados por Suas graças e bençãos, na certeza de que “Deus ama o que dá com alegria. Poderoso é Deus para cumular-vos com toda a espécie de benefícios, para que tendo sempre e em todas as coisas o necessário, vos sobre ainda muito para toda espécie de boas obras”4.

Se nesta Quaresma o nosso jejum ainda não foi capaz de gerar a esmola como fruto, reflitamos com verdade o real sentido que estamos dando a essa prática. Peçamos a Deus que inflame em nós, pelo poder do Seu Espírito, o discernimento, a ciência e o entendimento necessários para agirmos de forma diferente... Que o nosso coração seja impulsionado a dar sempre mais, sem tristeza nem constrangimento, mas sim com a imensa alegria de quem espera e confia na recompensa que vem de Deus.

Este é o tempo favorável e, se realmente quisermos, agora é a hora... Ainda dá tempo!

 

[1] Is 58, 6-7

[2] CIC 2447

[3] Tb 4, 7-12

[4] 2 Cor 9, 7-8

 

Por Daianne Duarte, Membro Compromissado da Comunidade Recado

 

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