O Pequeno Príncipe e o drama dos baobás do pecado

O Pequeno Príncipe e o drama dos baobás do pecado

Sim, o “Pequeno Príncipe” resolveu me acompanhar nesta Quaresma! Dias atrás escrevi um texto, falando do Capítulo XXIV do referido livro e propus uma leitura espiritual do mesmo, que nos ajudasse a adentrar no espírito quaresmal. Mas, eis que o Principezinho volta a nos falar! Pois é, o Espírito Santo me levou mais uma vez a um olhar espiritual, mas agora do capítulo quinto. Convido você a ler com atenção e a lembrar-se da perigosa realidade do “pecado”, cada vez que o texto falar dos “baobás”.

 

Capítulo V – O Pequeno Príncipe

Dia a dia eu ficava sabendo mais alguma coisa do planeta, da partida, da viagem. Mas isso devagarinho, ao acaso das reflexões. Foi assim que vim a conhecer, no terceiro dia, o drama dos baobás.

Dessa vez ainda, foi graças ao carneiro. Pois bruscamente o principezinho me interrogou, tomado de grave dúvida:

- É verdade que os carneiros comem arbustos?

- Sim. É verdade.

- Ah! Que bom!

Não compreendi logo porque era tão importante que os carneiros comessem arbustos. Mas o principezinho acrescentou:

- Por conseguinte eles comem também os baobás?

Fiz notar ao principezinho que os baobás não são arbustos, mas árvores grandes como igrejas. E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles não chegariam a dar cabo de um único baobá.

A ideia de um rebanho de elefantes fez rir ao principezinho:

- Seria preciso botar um por cima do outro...

Mas notou, em seguida, sabiamente:

- Os baobás, antes de crescer, são pequenos.

- É fato! Mas por que desejas tu que os carneiros comam os baobás pequenos?

- Por que haveria de ser? respondeu-me, como se se tratasse de uma evidência. E foi-me preciso um grande esforço de inteligência para compreender sozinho esse problema.

Com efeito, no planeta do principezinho havia, como em todos os outros planetas, ervas boas e más. Por conseguinte, sementes boas, de ervas boas; sementes más, de ervas más. Mas as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma cisme de despertar. Então ela espreguiça, e lança timidamente para o sol um inofensivo galhinho. Se é de roseira ou rabanete, podemos deixar que cresça à vontade. Mas quando se trata de uma planta ruim, é preciso arrancar logo, mal a tenhamos conhecido.

Ora, havia sementes terríveis no planeta do principezinho: as sementes de baobá... O solo do planeta estava enfestado. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando.

\"É uma questão de disciplina, me disse mais tarde o principezinho. Quando a gente acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta. É preciso que a gente se conforme em arrancar regularmente os baobás logo que se distingam das roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. É um trabalho sem graça, mas de fácil execução.\"

Em um dia aconselhou-me a tentar um belo desenho que fizesse essas coisas entrarem de uma vez na cabeça das crianças. \"Se algum dia tiverem de viajar, explicou-me, poderá ser útil para elas. Às vezes não há inconveniente em deixar um trabalho para mais tarde. Mas, quando se trata de baobá, é sempre uma catástrofe. Conheci um planeta habitado por um preguiçoso. Havia deixado três arbustos...\"

E, de acordo com as indicações do principezinho, desenhei o tal planeta.

Não gosto de tomar o tom de moralista. Mas o perigo dos baobás é tão pouco conhecido, e tão grandes os riscos daquele que se perdesse num asteroide, que, ao menos uma vez, faço exceção à minha reserva. E digo, portanto: \"Meninos! Cuidado com os baobás!\" Foi para advertir meus amigos de um perigo que há tanto tempo os ameaçava, como a mim, sem que pudéssemos suspeitar, que tanto caprichei naquele desenho. A lição que eu dava valia a pena. Perguntarão, talvez: Por que não há nesse livro outros desenhos tão grandiosos como o desenho dos baobás? A resposta é simples: tentei, mas não consegui. Quando desenhei os baobás, estava inteiramente possuído pelo sentimento de urgência.

 

- “O drama dos baobás”: Sim, o pecado é o drama da humanidade! O pecado é a raiz de todo o mal da humanidade. A morte é consequência do pecado (§1008 Catecismo), pelo pecado a morte entrou no mundo e com ela toda sorte de maldade e tristeza.

 

- “Fiz notar ao principezinho que os baobás não são arbustos, mas árvores grandes como igrejas”: O aviador assemelha os baobás às igrejas, porque ambos são grandes. Olhando o baobá como se fosse o pecado, percebemos que, de fato, a presença do pecado no mundo é tão real e marcante quanto à presença da Igreja, ambos estão espalhados pela Terra. Um como sinal de distanciamento para com Deus, o outro, pelo contrário, como sinal da íntima união com Deus (Constituição Dogmática Lumen Gentium, nº 1). Deus disse a Santa Catarina de Sena, nos Diálogos: \"O pecado priva o homem de Mim, sumo Bem, ao tirar-lhe a graça\". O evangelista João nos ensina que é no seio da Igreja que encontramos o Deus Vivo (Jo 20, 19-31).

 

- “E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles não chegariam a dar cabo de um único baobá”: Uma vez que o pecado se instala, nenhuma força humana consegue vencê-lo, a não ser a força espiritual da graça de Deus no Sacramento da Confissão. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, “A repetição dos pecados, mesmo veniais, gera os vícios, entre os quais se distinguem os pecados capitais” (§1876 Catecismo).

 

- “Os baobás, antes de crescer, são pequenos”: todo pecado nasce de um pequenino consentimento, nenhum pecado é grande quando ainda é semente de tentação. A tentação em si não é pecado, mas sim submeter-se e obedecê-la. A única forma de vencer um pecado, por maior que seja, é fugindo dele, é fugindo da pequena tentação que o precipita. “Do pecado se foge como se foge de uma serpente; porque, se dela te aproximares, ela te morderá.” (Eclo 21, 2).

 

- “E foi-me preciso um grande esforço de inteligência para compreender sozinho esse problema”: De fato, a inteligência humana, sob o efeito do Pecado Original, tornou-se lenta e muito debilitada diante das realidades espirituais. Sem a graça do Espírito Santo seremos sempre débeis, só Ele nos torna capazes de fazer o bem (§1803 Catecismo).

 

- “No planeta do principezinho havia, como em todos os outros planetas, ervas boas e más”: Obviamente as sementes da maldade e do pecado não foram colocadas originalmente em nosso coração quando Deus nos criou, porque o homem foi criado bom, mas após o Pecado Original, nosso coração ficou marcado com essa triste realidade: “Com efeito, é do coração que procedem más inclinações, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações. São estas coisas que tornam o homem impuro.” (Mt 15, 19- 20).

 

- “Quando se trata de uma planta ruim, é preciso arrancar logo, mal a tenhamos conhecido”: É preciso cortar o mal pela raiz, ou seja, é preciso arrancar enquanto ainda é tentação, porque depois pode ser tarde demais. Por isso devemos evitar as ocasiões de pecado. Pense bem quais são as ocasiões que te levam a pecar e fuja delas. Não tente ser forte, porque você não é. Se você fosse forte diante dessa situação ela não seria uma tentação para você.

 

- “Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando”: “O Pecado mortal destrói a caridade no coração do homem por uma infração grave da lei de Deus, desvia o homem de Deus, que é seu fim último e bem-aventurança, preferindo um bem inferior.\" (§1855 Catecismo). Diz ainda Santo Agostinho: “Pecar é destruir o próprio ser e caminhar para o nada.”

 

- “É uma questão de disciplina [...] É um trabalho sem graça, mas de fácil execução”: Ninguém gosta do assunto “pecado”, mas ele é um fato inerente à realidade humana, é a causa de todas as nossas tristezas e precisa ser tratado com disciplina através do exercício das virtudes (§1833 Catecismo) e na busca de exercícios espirituais como o jejum, a Confissão e a Eucaristia, “trabalho sem graça” para muitos, porque exige esforço pessoal, contínuo e vitalício (sim, porque durará a vida toda), mas é o único caminho para garantir a eternidade e, como bem disse o Principezinho, “é de fácil execução”, trata-se da fidelidade em pequenas práticas.

 

- “É preciso que a gente se conforme em arrancar regularmente os baobás”: É preciso conformar-se que só através da Confissão individual com o Sacerdote é que poderemos vencer os pecados e arrancá-los da nossa vida. Ainda que sejam pecados veniais, é aconselhável confessá-los para vencê-los e para não permitir que estes nos induzam ao pecado mortal. O Catecismo afirma que “se esse estado [de graça] não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso.” (§1861 Catecismo).

 

- “O perigo dos baobás é tão pouco conhecido, e tão grandes os riscos”: A doutrina sobre o pecado e a graça são desconhecidas por muitos, até mesmo entre os católicos se desconhece os riscos de morte eterna que o pecado pode causar e infelizmente ainda não sabem os efeitos que a Graça de uma boa confissão podem trazer.

 

- \"Meninos! Cuidado com os baobás!\": É uma questão de urgência! Se livre dos “baobás do pecado” e seja feliz de verdade. Santo Agostinho nos ensina: “Tua tristeza vem dos teus pecados, deixe que sua santidade seja tua alegria”.

 

 

Por Felipe Zanotto Reigota, Membro Compromissado da Comunidade Recado.

 

 

Referência

SAINT-EXUPERY, Antoine de. O pequeno príncipe. 48. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009. 96 p. Tradução de Dom Marcos Barbosa.

 

 Leia também: "O Pequeno Príncipe e a Quaresma".

 

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