O Pequeno Príncipe e a Quaresma

O Pequeno Príncipe e a Quaresma

Eu tomei a Palavra de Deus para rezar no primeiro dia da Quaresma, abri o Salmo 41 (42), porque o Espírito Santo me fazia recordar que minha alma tem sede de Deus. Enquanto lia e me deleitava com os versículos bíblicos, o Espírito me recordou uma frase do Capítulo 24 do famoso livro O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Mergulhei na leitura do capítulo enquanto o Espírito me levava a ter um novo olhar sobre o texto e quero partilhar com vocês como fonte de inspiração e alimento quaresmal.

 

Capítulo XXIV

Estávamos no oitavo dia de minha pane. Justamente quando bebia a última gota de minha provisão de água, foi que ouvi a história do vendedor.

- Ah! disse eu ao principezinho, são bem bonitas as tuas lembranças, mas eu não consertei ainda meu avião, não tenho mais nada para beber, e eu seria feliz, eu também, se pudesse ir caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte!

- Minha amiga raposa me disse...

- Meu caro, não se trata mais de raposa!

- Por quê?

- Porque vamos morrer de sede...

Ele não compreendeu o meu raciocínio, e respondeu:

- É bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer. Eu estou muito contente de ter tido a raposa por amiga...

- Não avalia o perigo, disse eu. Não tem nunca fome ou sede. Um raio de sol lhe basta...

Mas ele me olhou e respondeu ao que eu pensava:

- Tenho sede também... procuremos um poço...

- Eu fiz um gesto de desânimo: é absurdo procurar um poço ao acaso, na imensidão do deserto. No entanto, pusemo-nos a caminho.

Já tínhamos andado horas em silêncio quando a noite caiu e as estrelas começaram a brilhar. Eu as via como em sonho, porque tinha um pouco de febre, por causa da sede. As palavras do principezinho dançavam-me na memória:

- Tu tens sede também? perguntei-lhe.

Mas não respondeu à minha pergunta. Disse apenas:

- A água pode ser boa para o coração...

Não compreendi sua resposta e calei-me... Eu bem sabia que não adiantava interrogá-lo.

Ele estava cansado. Sentou-se. Sentei-me junto dele. E, após um silêncio, disse ainda:

- As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê...

Eu respondi "é mesmo" e fitei, sem falar, a ondulação da areia enluarada.

- O deserto é belo, acrescentou...

E era verdade. Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia. Não se vê nada. Não se escuta nada. E no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia...

O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar.

Fiquei surpreso por compreender de súbito essa misteriosa irradiação da areia. Quando eu era pequeno, habitava uma casa antiga, e diziam as lendas que ali fora enterrado um tesouro. Ninguém, é claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o procurou. Mas ele encantava a casa toda. Minha casa escondia um tesouro no fundo do coração...

- Quer se trate de casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que faz sua beleza é invisível!

- Estou contente, disse ele, que estejas de acordo com a raposa.

Como o principezinho adormecesse, tomei-o nos braços e prossegui a caminhada. Eu estava comovido. Tinha a impressão de carregar um frágil tesouro. Parecia-me mesmo não haver na Terra nada mais frágil. Considerava, à luz da lua, a fronte pálida, os olhos fechados, as mechas de cabelo que tremiam ao vento. E eu pensava: o que eu vejo não é mais que uma casca. O mais importante é invisível...

Como seus lábios entreabertos esboçassem um sorriso, pensei ainda: "O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme..." Eu o pressentia então mais frágil ainda. É preciso proteger as lâmpadas com cuidado: um sopro as pode apagar...

E, caminhando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando.

(SAINT-EXUPERY, 2009, p. 74).

 

Compartilho com vocês as minhas reflexões quaresmais:

 

- “Estávamos no oitavo dia”: O “oitavo dia” na teologia de São Basílio é a imagem da eternidade futura, o primeiro e o oitavo, o dia sem fim no qual não haverá mais tarde, nem sucessão, nem cessação, nem velhice, é o dia eterno, a alegria sem fim. É o dia da Ressurreição, o dia do reencontro de Jesus, o Esposo, conosco, a alma Esposa (personificada na pessoa de Santa Maria Magdalena em Jo 20, 11ss que encontra Jesus ressuscitado no primeiro dia da semana).

 

- A “pane”: é o sinal do sofrimento, da incompreensão e da visão turva causada pelo pecado. É a “pane interior” que nos imobiliza. O aviador tinha uma pane que o impedia de “alçar o livre voo”.

 

- “a última gota de minha provisão de água”: a última gota de esperança, de fé, de vida. A última chance!

 

- “...eu seria feliz, eu também, se pudesse ir caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte!”: além da sede e da pressa em encontrar a fonte, o aviador mostra que quer seguir passo a passo e com as mãos no bolso, isso é sinal de quem quer aproveitar também para contemplar as belezas do caminho. A quaresma vem nos ensinar a “contar bem os nossos dias” e aproveitar cada dia como se fosse o último, sempre em direção à fonte.

 

- “Porque vamos morrer de sede...”: O aviador mostra o desespero causado pela sede, como a corça que “anseia pelas águas” (Salmo 42). Nada mais importa, só “a água” irá sanar sua necessidade vital, irá matar sua sede: “Se alguém tem sede, venha, e o homem de desejos receba a água da vida” (Ap 22, 17).

 

- “É bom ter tido um amigo”: o príncipe mostra que uma amizade verdadeira é também “fonte no deserto” e que ela nos sustenta durante o caminho. O autor só vai compreender isso mais tarde, no capítulo 26, quando declara: “Ele era para mim como uma fonte no deserto”, referindo-se ao principezinho. É o mistério da amizade, da vida fraterna, que une duas pessoas sedentas em busca da mesma fonte, cada qual com sua última gota d’água, mas que é o bastante para sustentar o outro durante a busca: “Tenho sede também... procuremos um poço...”.

 

- “A água pode ser boa para o coração...”: Sim, pois o coração também tem sede, tanto quanto o corpo. Um tem sede de água, o outro, da Água da Vida.

 

- “As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê...”: O Pequeno Príncipe ama a sua rosa e faria tudo por ela. É a partir de sua bela flor que tudo toma sentido. Ele olha as estrelas no céu e sabe que dentre elas está o seu planeta onde habita sua pequena rosa. Ela é infinitamente pequena, mas para quem a ama, ela se torna o motivo da beleza das estrelas, faz bonita a noite e a solidão. Jesus, a Flor primorosa, traz sentido a tudo em nossa vida, até a noite da alma se torna estrelada.

 

- “Não se vê nada. Não se escuta nada. E no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia...”: No deserto, na noite, o nada e a escuridão é tudo o que temos. É no silêncio do deserto e da noite que “alguma coisa irradia”, quando não existem mais as luzes da soberba sabedoria humana e as vozes iludentes desse mundo, Deus irradia.

 

- “O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar.”: Aqui está todo o sentido quaresmal que encontrei neste texto! O que faz belo o deserto, o que me faz atravessá-lo com entusiasmo não é ele mesmo, mas o “poço” que ele esconde, ou seja, Deus, a Água da Vida. É a sede desse Poço que me move e sem esse Poço não teria sentido nenhum encararmos o deserto. Assim não teria sentido o deserto quaresmal senão encontrássemos nele a Fonte Pascal, a Fonte da Vida e do Amor. É inútil estar nesse deserto, senão por essa busca.

 

- “Minha casa escondia um tesouro no fundo do coração...”: Após passar por três analogias – estrelas, deserto e casa – o autor compreende que é o “Invisível” (I Tm 1, 17) que torna belas todas as outras coisas, é o que realmente dá sentido a tudo. “Quer se trate de casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que faz sua beleza é invisível!”

 

- “Como o principezinho adormecesse”: gosto de tomar o principezinho adormecido como sinal de Jesus Crucificado, a quem convidados a contemplar. Na aparência de Jesus crucificado não há vida, muito pelo contrário, sua aparência é de morte. Mas nós somos convidados a contemplar que é no silêncio dessa “semente caída na terra” que está a ressurreição e a vida do mundo. Ele que se fez frágil e pequeno. Quando viam Jesus pendurado na Cruz, viam somente “a casca”, mas ninguém imaginara que dessa casca rompida brotaria vida e vida em plenitude.

 

- “O que tanto me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor”: Quaresma é tempo de olha o amor fiel de Deus por nós que chegou ao ponto de dar sua própria vida pela nossa vida. Olhar o Crucificado é comovente! Se você não é mais capaz de se comover com a Cruz, talvez nunca será capaz de se comover com a vida, com esta vida e com a Vida que há de vir.

 

- “E, caminhando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando.”: Só essa frase já é o bastante para se fazer um retiro espiritual! Caminhando: caminhar, sair do lugar, buscar outro lugar, o meu lugar, enfrentar, decidir, deixar para trás, caminhar para descobrir o poço, eis o sentido da Quaresma. O autor utiliza a palavra “poço”, mais que a palavra “fonte”, talvez porque a fonte jorra por si, mas o poço exige esforço humano para se alcançar e retirar a água. Não seria para nós um sinal de que a saciedade da nossa alma depende mais de nós do que de Deus mesmo?!

O autor termina o capítulo declarando que quando o “poço” é encontrado um novo dia começa, eis novamente o sentido da Ressurreição, o dia sem declínio.

 

Por Felipe Zanotto Reigota, Membro Compromissado da Comunidade Recado

 

 

Referência

SAINT-EXUPERY, Antoine de. O pequeno príncipe. 48. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009. 96 p. Tradução de Dom Marcos Barbosa.

 

 Leia também: "O Pequeno Príncipe e o drama dos baobás do pecado".

 

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