O cuidado com a superficialidade no essencial

O cuidado com a superficialidade no essencial

Há algum tempo, um homem entrou para a história. Ele foi revolucionário em seu tempo, falou do abuso dos governantes, denunciou a exploração dos necessitados e o acúmulo de riqueza nas mãos de poucos. Por isso, foi perseguido. Tentaram denegrir sua imagem perante o povo. Porém, o povo gostava de seu discurso e das coisas que ele ensinava.

Muitos foram atrás dele pelo que ele oferecia. Seguir, entretanto, foi para poucos porque isso representava a renúncia dos seus comodismos, a renúncia de si mesmo.

Esse homem não ofereceu vida fácil àqueles que optassem por segui-lo. Ao contrário, ele advertiu severamente que, quem fosse com ele, deixaria até sua família para trás. Não tinha nada material a oferecer, porque nem ele tinha lugar para reclinar a cabeça. Todos tinham dúvida sobre quem ele era, mas todos tinham certeza sobre o que ele falava.

Certo dia, as autoridades conseguiram subornar um dos seus amigos para uma emboscada. Prenderam o homem. Seu interrogatório foi seguido por tortura. Sim. Ele foi barbaramente torturado. Não assumiu nada que não houvesse feito. Houve até quem sentenciasse que nele não havia mal algum.

Porém, jogos políticos são práticas antigas, e já havia uma grande massa popular que o condenara sem nada em mãos. Trocaram sua vida pela liberdade de um assassino cruel. “Soltem-nos o assassino e prendam esse homem!”, disse em uniformidade o povo.

E, como o povo é ouvido apenas quando convém aos governantes, condenaram o revolucionário, castigaram-no e prenderam-no numa cruz. Claro que isto é uma narração simplista ao que realmente aconteceu entre sua prisão e morte na cruz. Muita violência aconteceu entre estes dois instantes.

Mesmo sem suas forças humanas, contando apenas com a força de Deus, o homem foi capaz de um ato, que podemos dizer, heroico: perdoou seus algozes antes da morte! Ora, quem em sã consciência poderia ter ato tão nobre? Seria mais alguma manobra daquele homem tentando clemência àquela altura?

Não. Foi um ato que representou quem, de fato, ele era: Filho de Deus.

Porém, o reconhecimento por parte do guarda que assistiu a tudo foi tardio; já não foi mais capaz de salvar sua vida. O homem morreu crucificado, em meio a uma manifestação sobrenatural da natureza.

O leitor pode se questionar: por que essa narração da vida de Jesus dessa forma (superficial, breve)? Aonde a autora do texto pretende chegar?

Simples! Apesar de todos os fatos narrados serem reais, diariamente, somos bombardeados por histórias e mais histórias dessa forma, nas mais diversas redes/mídias sociais: uma pessoa (às vezes, sem nome), seus feitos, a injustiça, a tragédia. Detalhes importantes são esquecidos, intencionalmente ou não, e descreve-se uma vida na superficialidade. Nessa rapidez que a comunicação digital nos impõe, nós nos acostumamos a ficar com esses relatos breves, superficiais, resumidíssimos, e, a partir daí, queremos, muitas vezes, extrair lições ou até embasamentos para discussões de alta complexidade.

Nós nos identificamos com determinados fatos, compartilhamos entre nossos contatos, “viralizamos” a história, vestimos a camisa do desconhecido, ou empunhamos nossas críticas mais afiadas contra tudo aquilo, entramos em polêmicas desnecessárias, nos indispomos publicamente...

Essa tem sido a prática na era da informação: falta de conhecimento, intolerância, guerra.

Empobreci propositalmente a história da vida de Jesus na terra, para provar a mim mesma, em primeiro lugar, o quanto precisamos nos aprofundar em nossas convicções naquilo que defendemos, pregamos, compartilhamos e dizemos que amamos.

Amo a Jesus o suficiente? Conheço seus ensinamentos? Acolho suas palavras de salvação, mas, também, suas exortações? Aceito com docilidade aquilo que me custará renúncia? Sou íntima desse Jesus que foi capaz de morrer numa cruz por cada um de nós? Faço justiça em minhas pregações a quem Ele realmente Foi, É e sempre Será? Eu o faço no meu silêncio, nas minhas atitudes?

Jesus é mais que uma história a ser contada. Ele não foi um pensador ou um filósofo. É Deus! Seguir a Jesus é incorporá-Lo em nossas vidas, em todos os momentos. Ele não foi um guerrilheiro, nem um revolucionário qualquer. Tudo o que Ele falou e denunciou à época não foi para conquistar popularidade; Ele não precisa disso, nem nunca precisará da nossa opinião. Não se importa para índices de audiência ou “curtidas”. Não carece de aprovação humana para ser Deus.

Jesus veio para instaurar um Reino de amor, mas também de justiça. Jesus tem compromisso com a verdade, e é o mínimo que temos que devolver a Ele: Sua verdade em nossa verdade. Tudo o que Ele disse e fez, mantém-se atual até nossos dias, e assim será até o fim dos tempos.

Que nossas convicções não sejam apenas “manifestações” nas redes sociais. Que, antes, tais palavras, ações, partam do meu coração e da minha profunda experiência com Cristo. Isso sim será um transbordamento valioso para a vida de tantas pessoas. Que nossa religião não seja fanática, nem fundamentalista, porque sabemos que tais coisas levam à morte. Que eu coloque as riquezas de todos os detalhes da vida de Jesus na minha vida, para que meu testemunho seja rico e profundo.

 

Por Sara Pimentel, Membro da Comunidade Recado