“Nós ignoramos Cristo”

“Nós ignoramos Cristo”

Onde está a Palavra de Deus? Nos armários, nas estantes, nas gavetas das sacristias? Onde estamos escondendo a Palavra de Deus se ela não está em nossas mãos?

Cada vez mais percebemos que a Bíblia tem sido deixada de lado. A Bíblia já não é mais levada pelos participantes dos grupos de oração, nas reuniões, formações. Rezamos com livros, apostilas, músicas e nem sempre reservamos um tempo para mergulhar na Palavra de Deus, nem sequer na liturgia do dia.

Não podemos esquecer que a Palavra de Deus é o próprio Jesus, como nos ensina São Jerônimo: "Não te parece habitar já aqui na terra no reino dos céus, quando se vive entre estes textos, quando os meditamos, quando não se conhece e não se procura nada mais?" (Ep. 53, 10). Na realidade, dialogar com Deus, com a sua Palavra, é num certo sentido presença do Céu, isto é, presença de Deus. Aproximar-se dos textos bíblicos, sobretudo do Novo Testamento, é essencial para o crente, porque "ignorar a Escritura é ignorar Cristo"1. Presença do Céu, presença de Deus, quantas vezes procuramos a presença consoladora de Deus em tantos lugares e pessoas e ela está bem ali ao nosso alcance, na Sagrada Escritura, no entanto nós a desprezamos, ignoramos o Cristo que quer nos falar e amar.

Falando das Escrituras como um lugar de diálogo com Deus, ele escreve: "Se rezas, falas com o Esposo; se lês, é Ele quem te fala". (Epístola 22, 25) A Palavra de Deus é aquela luz (Salmo 119, 105) que se acende quando estamos caminhando no escuro, é aquele abraço quando nos sentimos desamparados e aquela força em meio à franqueza. Deus nos fala o tempo todo, mas muitas vezes mantemos os ouvidos fechados às suas palavras e preferimos acreditar no que o mundo diz.

A Palavra de Deus também é auxílio na nossa luta contra as tentações: "Ama a ciência da Escritura, e não amarás os vícios da carne" (Epístola 125, 11), diz São Jerônimo. E realmente, aquele que lê e reza com a Palavra de Deus e a coloca em prática, não tem tempo para o pecado, pois cerra os ouvidos às tentações diabólicas.

Eu me lembro do testemunho de um jovem de 15 anos, que após sua experiência pessoal com Cristo, se desfez de seus livros preferidos, porque percebeu que perdia mais tempo com eles do que debruçado sobre as Sagradas Escrituras e a partir dessa decisão passou a levar a Bíblia na mochila em todos os lugares que ia. É claro que ninguém precisa sair jogando seus livros preferidos, mas o testemunho radical desse jovem vem nos interpelar se, de fato, estamos elegendo as Escrituras como nossa leitura predileta, ou se ela é só mais uma entre tantas outras.

Eu mesmo posso testemunhar que muitas vezes senti a presença de Deus nos momentos de oração pessoal e comunitária, e mais que um sentimento, essa presença viva me trouxe alento e, inúmeras vezes, me guiou em meio às difíceis decisões. Quantas vezes já me peguei abraçado com a Bíblia, num desejo profundo de cumprir o que ela me dizia, quantas vezes rezei com as Sagradas Páginas no coração, quantas vezes chorei, repousando a minha cabeça sobre ela e sentindo em cada passagem o cuidado de Deus me falando como um Pai que consola ou corrige seu filho.

Não podemos deixar de comentar que, em tempos atuais, existe o fator do desenvolvimento tecnológico que se não for usado com moderação pode nos distrair em nossos objetivos e até atrapalhar o curso da vida. Como os aplicativos. Hoje temos aplicativos para todos os gostos e fins, inclusive temos muitos aplicativos de liturgia diária, de liturgia das horas, bíblias nas mais diversas traduções, enfim, é uma oportunidade a mais para nos aproximarmos da Palavra de Deus e a levarmos sempre conosco. Contudo não devemos dispensar nossa velha e querida bíblia de papel e leva-la conosco em nossa mochila, tê-la em nossa oração pessoal, abraçá-la e beija-la com veneração, como aprendemos com os mais velhos. Parece besteira, mas não é! Se não usarmos nossa velha bíblia de papel, provavelmente não saberemos manuseá-la mais, não a conheceremos e perderemos facilmente a intimidade e a reverência Que bom seria se pudéssemos rezar diariamente com a Palavra de Deus e com a liturgia diária, consequentemente viveríamos melhor também a Santa Missa.

Penso que seria oportuno trazer aqui, de forma rápida, o método de leitura bíblica mais difundido pela Igreja, a Lectio Divinæ, ou seja, uma leitura orante da Palavra de Deus, o método mais fácil e eficaz de conhecermos, estudarmos e rezarmos com a Palavra de Deus, pois basta termos a Bíblia, papel e caneta na mão.

Clique AQUI para aprender os passos da Lectio Divinæ.

Encerro com uma citação da Constituição Dogmática Dei Verbum, número 21: "A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, [...] nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro de Seus filhos, a conversar com eles; e é tão grande a força e a virtude da palavra de Deus que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual".

Não ignoremos mais a Cristo, mas o acolhamos em nossa vida, ouvindo sua Palavra e colocando-a em prática!

 

Por Felipe Zanotto Reigota, Membro da Comunidade Recado.

 


1. Papa Bento XVI. Audiência Geral do dia 14/11/2007.

 

 

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