Músico, onde está sua presença cênica?

Músico, onde está sua presença cênica?

O nascimento da arte1 se confunde com o nascimento da humanidade. Dança, teatro e música se confundiam nas manifestações das “danças rituais” dos povos primitivos. Não se pode afirmar o fim último dessas “danças”, mas o que se pode constatar, a partir desses estudos, é que não se existia, no começo de tudo, uma separação entre as artes; foi por uma questão de didática que elas foram agrupadas em categorias.

A dança, o teatro e a música foram agrupados, então, em dois grandes grupos: as artes cênicas e as artes musicais. Fato que gerou, especificamente no cérebro ocidental, uma separação corporal. As artes cênicas começaram a ser entendidas como a arte do corpo (e da palavra no caso do teatro); e a música como a arte da voz e da habilidade quase que inata (no caso dos instrumentistas).

Essa mutilação corporal resultou na trágica consequência de minimização do trabalho do artista, cada um estuda do seu corpo apenas aquilo que cabe à sua arte. E nessa tragédia considero os músicos os mais prejudicados, visto que ao trabalhar com instrumentos específicos (entenda-se a voz como um instrumento) o músico precisa crescer cada vez mais na sua habilidade com esse instrumento, resultando, muitas vezes no esquecimento do todo, no esquecimento do corpo.

Segundo o teórico teatral Rudolf Laban2 toda a expressividade humana nasce do movimento do corpo. Laban entende o corpo humano como um todo que expressa, ou seja, um todo que se movimenta, sejam esses movimentos externos (braços, cabeça, pés etc) ou internos (dos órgãos em geral). Laban, explicando que a primeira ação de todo homem é movimentar-se, defende que o movimento corporal é o gerador de toda e qualquer atitude do homem, por mais que esse movimento seja imperceptível.

Podemos então, tomando o estudo de Laban como base, entender o corpo como um todo único e indivisível. O corpo, dessa forma, pode ser percebido como o componente básico de toda e qualquer expressão artística.

Quando afirmamos a presença de um componente básico, afirmamos a presença de algo essencial e indispensável. Ou seja, o corpo é indispensável para qualquer procedimento artístico. A arte não é algo que penetra o corpo humano, a arte é algo que nasce do corpo humano. Sendo assim, o corpo não é apenas o componente básico, mas o gerador da arte.

 

Estudar, entender, conhecer e saber melhor o utilizar o seu corpo é trabalho de todo artista cênico. O termo artista cênico é utilizado para os artistas de dança e teatro, mas aqui estendo propositalmente essa característica também aos músicos, visto que, estes também se utilizam da cena/palco como meio de propagar a sua arte. Vejamos o que nos diz Laban à respeito do trabalho corporal do artista cênico:

 

O corpo é o instrumento pelo qual o homem comunica e exprime. Sendo assim, quem quer que seja que cultive essa arte3, em particular o artista cênico, deve adquirir a capacidade em fazer ações corporais distintas, ou seja, saber utilizar precisamente o seu corpo e suas articulações, esteja o corpo em movimento ou imóvel4.

 

Assim percebemos que quanto melhor conhecermos o nosso corpo melhor saberemos nos utilizar desse corpo como instrumento que comunica e expressa. Por que existem tantos músicos tão interessantes de ouvir, mas tão cansativos de olhar? Arrisco em dizer, sem medo, que esses tais músicos se preocuparam demais com os seus instrumentos e de menos com o seu corpo.

Existem, no entanto, músicos que são tão naturalmente impregnados pela sua arte que lhes é impossível não se colocar inteiros naquilo que fazem. A esses nós assistimos 4 horas de espetáculo sem nos cansarmos e sem nem mesmo ver o tempo passar. Mas existem outros tantos que ainda não aprenderam a se colocar inteiros naquilo que fazem. Quando digo inteiros, falo de corpo, falo da busca por uma presença cênica, entendendo que esta presença está diretamente ligada a uma consciência corporal que só é adquirida com esforço e estudo.

Por isso o estudo e a compreensão do corpo, para os músicos, são urgentes e vitais! É importante e necessário procurar exercícios, cursos, que possam auxiliar nessa busca de uma maior consciência corporal, para que assim, os músicos deixem de ser apenas um corpo, sem vida, que toca ou canta e possam tornar-se pessoas inteiras que expressam através de sua arte o que são e tem. O corpo é a fonte da vida, do impulso artístico, sem ele a arte se torna desinteressante e banal.

É pelo conhecimento do seu corpo que o músico conseguira eliminar bloqueios e tensões que muitas vezes o impedem de dar o melhor que ele pode. A consciência corporal permite ao músico uma maior liberdade em cena, sendo essa liberdade o princípio de uma presença cênica interessante e eficiente.

Deus nos deu uma arma, um dom, porém, cabe a nós o esforço e a busca constante para sermos cada vez mais hábeis e eficientes no nosso serviço.



1. O nascimento da arte em geral, inclusive das artes plásticas. No entanto nesse texto o foco serão as artes cênicas. Incluindo, neste caso, a música nas artes cênicas. 

2. Rudolf Laban (1879-1958) teórico teatral contemporâneo que desenvolveu estudos sobre a origem do movimento cênico. Ele entendia o teatro a dança como artes complementares e até mesmo similares.

3. Laban fala aqui da arte do movimento. A base de uma presença cênica eficiente, segundo Laban, é saber movimentar-se.

4. LABAN, Rudolf. La maîtrise du mouvement. Arles (Bouches-du-Rhône) : Actes Sud, 1994. P. 81

Por Debora Moreira - Compromissada da Comunidade Recado.

 

Quer fazer a evangelização acontecer no seu ministério? Então CLIQUE AQUI. Quer saber como ela pode chegar o mundo inteiro?! CLIQUE AQUI