"Meu cansaço que a outros descanse..."

O tema desse texto foi inspirado e retirado da música “A barca” (se nunca ouviu, vale a pena) e aparece em um trecho que, diga-se de passagem, sempre me tocou profundamente:

“Meu cansaço que a outros descanse, amor que almeja seguir amando”.
Nele é fácil se contemplar a beleza de doar tudo de si, de ir além, de servir sem hesitar... mas espera aí, estamos nós sempre dispostos a realmente doar tudo de si e levar outros a descansar através do nosso cansaço? Nosso cansaço provém realmente das nossas limitações? O cansaço pode ser também uma tentação? Bem, continua lendo aí...

Quantas vezes você já se sentiu cansado, exausto, com a impressão que existe apenas você para realizar todas as tarefas, seja em sua comunidade, paroquia, pastoral ou grupo de oração? Isso é mais comum do que se imagina e tem horas que o desejo é de jogar tudo para o alto e dar as costas, não é?
Comumente nos vemos, nessas situações em que julgamos estar sendo sugados e até mesmo “explorados”, e achamos que nossas forças já não são capazes de realizar tantas ações, atividades ou missões, que nos são confiadas. O que muitas vezes não percebemos é que essa sensação de esgotamento, esse cansaço também se apresenta como uma forma de tentação. Nesse ponto é extremamente importante que nos conheçamos bem, estejamos a par de nossas limitações para que, conhecendo a si mesmo, consigamos distinguir, estar atento ao que pode ser o cansaço físico e humano, do cansaço por tentação, como nos alerta São Josemaria Escrivá em parte dos seus escritos, citados a seguir:

 

 “Quero prevenir-te a respeito de uma dificuldade que talvez possa apresentar-se: A tentação do cansaço, do desalento.  – Não está ainda fresca na tua memória uma vida - a tua – sem rumo, sem meta, sem sal, que a luz de Deus e a tua entrega endireitaram e encheram de alegria? - Não troques bobamente isto por aquilo. (Forja, 286).

Se notas que não és capaz – seja por que motivo for, diz-lhe, abandonando-te nEle: Senhor, confio em ti, abandono-me em ti, mas ajuda minha fraqueza!

Não tardarás em ouvir a sua voz: “Ne timeas! ” – Não temas! – Ou também: “Surge et ambula! ”  - Levanta-te e anda! (Forja, 287)

 

É importante pensarmos e termos em mente sempre o sentido de nossa missão, a ciência do que fazermos e por que fazemos.

‘Meu cansaço que a outros descanse’; Costumo comparar essa frase a um pai de família que dia a dia se cansa, mas se revigora por alimentar os filhos e poder proporcioná-los o melhor, que restaura suas forças dando forças àqueles que lhe foi confiado o cuidado.

Assim também deve ser conosco, nos revigorarmos e nos alegrarmos, pois é por meio de nosso cansaço que muitos estão tendo seu encontro com o Cristo, recebendo o alimento espiritual.

E assim, tendo fixa a certeza de que quem nos dá o verdadeiro descanso é Deus (Afinal, ele nos diz isso, não é?! “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei.” – Mateus 11. 28), não daremos espaço para que a tentação do desalento chegue a nós. Conseguiremos cumprir nossa missão, cientes de nossas limitações, mas com o ânimo, a força e a coragem de quem doa sua vida pela salvação de outras vidas, de quem não desanima mesmo quando acha que já não dá, de quem com seu cansaço a outros descansa!

Deus te abençoe. Louvor e Alegria!

 

Por Erialdo Jeronimo, Membro da Comunidade Recado