Ei, compositor! Qual o limite para o uso da licença poética?

Ei, compositor! Qual o limite para o uso da licença poética?

Como você, artista, compõe? De onde vem sua inspiração? Quem lê sua arte depois de escrita? Essas são perguntas importantes a levar em consideração no processo de criação e composição musical. Quando se trata de escrita, é muito importante levar alguns aspectos em consideração, pois não é apenas o papel que é importante, a melodia que a música tem, por exemplo, interfere nesse processo de escrita.

De acordo com o Dicionário Houaiss, licença poética diz respeito à “liberdade de o escritor contrariar as regras da poética ou da gramática para atingir objetivos de expressão”. Mas, até que ponto é possível se contrariar regras? Qual o limite para o uso da licença poética? Onde é possível utilizá-la e onde isso não é possível?

Esse recurso linguístico que permite, como que em uma autorização intrínseca, certos desvios aos moldes cultos da língua é utilizado tanto em textos como em músicas. Muitas vezes é usado a fim de registrar, de forma escrita, certo modo de falar característico de alguma região ou pode ser usado simplesmente para compor um verso que caiba em uma rima ou em uma métrica.

Na música “DDD” do grupo musical DDD – Doindin de Deus –, por exemplo, essa licença poética ocorre pelo emprego de formas lexicais que fogem ao rigor da língua padrão. Observe o seguinte trecho: “A minha vida é na igreja pra rezar / Nem percevejo mora como eu moro lá. / Segunda e terça eu na intercessão, / Quarta-feira, quinta e sexta no grupo de oração. / Sabo e domingo eu na Santa Missa, / Minha rotina é a mió de se viver”. Nos termos em negrito é possível perceber um claro desvio em relação à normal culta da língua, mas isso é feito na intenção de reproduzir um modo de falar específico, uma variação da linguagem. Observe-se ainda que o termo sublinhado (pra) não representa precisa e estritamente um desvio da norma-padrão, mas uma redução da preposição “para”, uso que é bastante comum no registro coloquial e que hoje se verifica até em texto literários. Essa redução também foi empregada para adequar o verso à métrica. Já o trecho em itálico apresenta reduções de alguns dos nomes dos dias de semana, com a omissão do termo “feira”, que aparece apenas em um dos dias aos quais se aplica a composição. Isso também foi feito como forma de adequação à métrica e, ainda, como forma de economia na linguagem, em razão de estar claro para o ouvinte que se trata de designação de dias da semana.

É necessário, entretanto, se ter cuidado com o uso da licença poética, pois esse uso não se justifica em todas as situações. É perceptível quando o desvio à norma culta da língua ocorre sem intenção do escritor. E esses erros podem empobrecer a composição.

Quando se fala de liturgia o cuidado deve ser maior ainda, pois as músicas litúrgicas devem seguir o modelo dos ritos litúrgicos, os quais utilizam o uso da norma culta da língua. Eventualmente podem acontecer alterações quanto à colocação pronominal, no entanto, não há muita “fuga” do registro culto da língua.

É importante que o compositor tenha conhecimento da gramática, para que não justifique quaisquer desvios à normal culta como sendo licença poética. A composição musical é um processo criativo livre. O Espírito Santo sempre nos inspira a criar. No entanto, pode ajudar nesse processo submeter a composição a outrem, a fim de que faça sugestões que visam o melhoramento da sua arte. A excelência no fazer artístico deve permear nossas criações.

 

Por Cláudia Pessoa, Membro da Comunidade Recado.

 

HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva. Versão 3.0. 1 [CD-ROM]. 2010.

 

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