Dica de maestro para melhor cantar a liturgia da Missa durante a Quaresma

Dica de maestro para melhor cantar a liturgia da Missa durante a Quaresma

Sabemos que “todos os dias são santificados pelas celebrações litúrgicas do Povo de Deus, principalmente pelo Sacrifício Eucarístico e pelo Ofício Divino” 1, este também chamado de Liturgia das Horas.

E para oferecer aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos de seu Senhor, a ponto de torná-los como que presentes a todo tempo, para que os fiéis, em contato com eles, se encham de graça, nossa santa mãe Igreja “distribui todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Encarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor,”2 como um “desenrolar dos diferentes aspectos do único mistério pascal.”3

Assim, “através dos quarenta dias da Grande Quaresma, nos associamos cada ano ao mistério de Jesus no deserto.”4

Para nós, isso significa ter um tempo privilegiado para como que retirar-se, buscar o silêncio, orar mais, ouvir atentamente a Palavra, penitenciar-se, dispor-se ao combate espiritual, rever a própria vida, converter-se... Tudo em preparação a um grande acontecimento: a celebração do sagrado Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor, o qual “resplandece como o ápice de todo o ano litúrgico” 5 e tem seu centro na Vigília Pascal 6 , quando, juntamente com essa especial celebração do Mistério Pascal, os fiéis renovarão as promessas de seu batismo e, se os houver, os catecúmenos, ou seja, os adultos que anseiam por ser incorporados na Igreja e esta já trata como seus7, receberão os sacramentos da iniciação cristã: Batismo, Confirmação e Eucaristia8.

TRANSFORME SEU MINISTÉRIO DE MÚSICA, TEATRO E DANÇA EM CINCO DIAS

Portanto, tendo a solenidade da Páscoa, em relação ao ano litúrgico a mesma culminância do Domingo em relação aos demais dias da semana9, “a observância anual da Quaresma é tempo favorável pelo qual se sobe ao monte santo da Páscoa”10.

“O Tempo da Quaresma vai de Quarta-feira de Cinzas até a Missa da Ceia do Senhor exclusive.”11 Exclusive porque, com a Missa da Ceia do Senhor, já somos introduzidos no Tríduo Pascal.

Assim, “o tempo quaresmal prepara os catecúmenos e os fiéis para a celebração do mistério pascal. Os catecúmenos, pela eleição e escrutínios e também pela catequese, são conduzidos aos sacramentos da iniciação cristã; os fiéis, ouvindo de forma mais intensiva a Palavra de Deus e aplicando-se mais à oração, preparam-se, pela penitência, para renovar as promessas do batismo.”12

“Na Quarta-feira de abertura da Quaresma, que é por toda a parte dia de jejum, faz-se a imposição das cinzas.”13

“Os domingos deste tempo são chamados 1º, 2º, 3º, 4º e 5º domingos da Quaresma. O 6º domingo é chamado ‘Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor’ e marca o início da Semana Santa, a qual visa recordar a Paixão de Cristo, desde sua entrada messiânica em Jerusalém.”14

“Pela manhã da Quinta-feira da Semana Santa, o Bispo, concelebrando a Missa com os seus presbíteros, benze os santos óleos e consagra o crisma.”15

Como, então, colocar a arte musical a serviço da Liturgia da Quaresma, evidenciando seus aspectos principais de penitência e batismo16? O que cantar na Santa Missa nesse tempo? Como cantar?

Nunca é demais lembrar que há critérios gerais acerca da música sacra, ou seja, da música litúrgica ou ritual, que nos orientam na escolha dos cantos e que valem para qualquer tempo litúrgico, inclusive para a Quaresma.

O critério geral mais decisivo na escolha dos cantos para se cantar diz respeito ao cuidado com a letra dos cantos.

TRANSFORME SEU MINISTÉRIO DE MÚSICA, TEATRO E DANÇA EM CINCO DIAS

Há cantos cujas letras, ou seja, textos, já estão previstas no Missal ou no Lecionário e não há a possibilidade de serem mudadas. Mesmo pequenas e aparentemente inocentes alterações dificilmente deixarão de interferir no sentido do texto. E o que dizer de paráfrases, ou de textos que inserem outras ideias, ou então da simples substituição dos textos previstos por outros completamente diferentes e etc.?

São Pio X, no Motu Proprio Tra Le Solicittude, vai além: “o texto litúrgico tem de ser cantado como se encontra nos livros aprovados, sem posposição ou alteração das palavras, sem repetições indevidas, sem deslocar as sílabas, sempre de modo inteligível.”17

Devemos, portanto, ter sempre presente que “nenhum rito sacramental pode ser modificado ou manipulado ao arbítrio do ministro ou da comunidade”18, pois “a lei da oração é a lei da fé, a Igreja crê conforme reza. A liturgia é um elemento constitutivo da Tradição santa e viva.”19 Nossos pastores, reunidos em concílio, são muito claros: além da Sé Apostólica; e do Bispo, segundo as normas do direito; e das assembleias episcopais, dentro dos limites estabelecidos; “ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja o que for em matéria litúrgica”20; e também: “não é lícito substituir os cantos colocados no Ordinário da Missa, por exemplo, o Cordeiro de Deus, por outros cantos.”21

E isso não é ser rubricista, ou seja, formalista. É ser obediente. É amar nossa Igreja, respeitando o que é deixado fora de nosso arbítrio individual. É abraçar a expressão da fé viva que nos precede, nos forma e nos conduz ao Mistério que celebramos e, com o auxílio da graça divina, vivemos em nossa existência cristã.

Entre os cantos que têm letra já prevista, e que deve ser respeitada, estão a maioria dos cantos do chamado ordinário da Missa, como, por exemplo, algumas partes do Ato Penitencial, o Senhor, tende piedade, o Glória, a Profissão de Fé, o Santo, o Pai nosso, o Cordeiro e tudo o mais a que também chamamos de partes fixas da Missa. Não basta ter as palavras “glória”, ou “santo”, ou começar com “Pai nosso”, e o resto ser diferente, ainda que “mais ou menos” parecido.

TRANSFORME SEU MINISTÉRIO DE MÚSICA, TEATRO E DANÇA EM CINCO DIAS

Há, no entanto, alguns cantos que não têm suas letras previstas no Missal ou cujas letras, apesar de haver alguma sugestão, podem ser substituídas por outras, conforme orientações do próprio Missal. São o Canto de Entrada, o Canto para o rito da Aspersão (caso este rito substitua o Ato Penitencial) o Canto das Ofertas, o Canto da Comunhão, o Canto Após a Comunhão22 e outros cantos menos frequentes referidos pelo próprio Missal (ex.: cantos para a imposição das cinzas, para a procissão de ramos, para acompanhar o rito do lava-pés, para adoração da santa Cruz, etc).

Mas é imprescindível que esses cantos devam, inclusive no Tempo da Quaresma, “estar de acordo com a doutrina católica e inspirar-se sobretudo na Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas.”23 E isso porque “é enorme a importância da Sagrada Escritura na celebração da Liturgia. Porque é a ela que se vão buscar as leituras que se explicam na homilia e os salmos para cantar; com o seu espírito e da sua inspiração nasceram as preces, as orações e os hinos litúrgicos; dela tiram a sua capacidade de significação as ações e os sinais.”24 E devemos lembrar sempre que “o sacramento é preparado pela Palavra de Deus e pela fé, que é assentimento à dita Palavra”. “São sacramentos da fé, que nasce e se alimenta da Palavra.”25 Desse modo, tem-se garantida a coerência entre os cantos e o mistério que celebramos.

É também desejável “que os textos dos cantos estejam mais na linha do louvor gratuito, da ação de graças, da súplica e do perdão, como requer a genuína expressão litúrgica, e não sejam apenas catequéticos e moralizantes.”26

No Brasil, tendo em vista que “a penitência quaresmal não há de ser meramente interna e individual, mas também externa e social, orientada para as obras de misericórdia em favor dos irmãos”27, temos tradicionalmente, durante a Quaresma, a Campanha da Fraternidade. No entanto, em favor da formação de um repertório bíblico-litúrgico quaresmal, desde 2006, têm-se procurado valorizar mais o hino da campanha em si do que uma “missa temática inteira” a cada ano, sugerindo-se que o hino não ocupe necessariamente o lugar do canto de entrada.28

TRANSFORME SEU MINISTÉRIO DE MÚSICA, TEATRO E DANÇA EM CINCO DIAS

E a cada ano, a CNBB tem apresentado o CD da Campanha da Fraternidade com cantos para o tempo da Quaresma, além de cantos mais específicos relacionados ao tema do ano. Constitui, certamente, guia seguro do que cantar.

Mas nunca é demais lembrar que o canto gregoriano é nossa referência primeira no que diz respeito à música litúrgica29. O próprio Missal traz os textos das antífonas de Entrada e de Comunhão em versão para o português tiradas do Gradual Romano, que é um livro de repertório de cantos gregorianos30, e que podem ser tidos como inspiração para textos metrificados e versificados, caminho este seguido por boa parte dos cantos dos hinários da CNBB, ou serem mesmo musicados em sua literalidade.

No Gradual Romano, a antífona da Comunhão quase sempre está diretamente relacionada ao Evangelho do dia, para melhor evidenciar a íntima relação entre a Palavra proclamada na mesa da Palavra com o Mistério Eucarístico celebrado no altar: “espiritualmente alimentada nestas duas mesas, a Igreja, em uma, instrui-se mais, e na outra santifica-se mais plenamente; [...] a palavra divina que a Igreja lê e anuncia na Liturgia conduz, como a seu próprio fim, ao sacrifício da aliança e ao banquete da graça, isto é, à Eucaristia.”31

Há também o Gradual Simplex, outro livro de repertório gregoriano, com cantos musicalmente mais fáceis, cujos textos podem nos servir de guia. A própria Liturgia das Horas, com seus hinos, antífonas, salmos, leituras, responsórios, etc., como também as orações da Liturgia da Missa, podem nos orientar na adequada escolha de nossos cantos.

Enfim, isso tudo pode nos servir de orientação quando estamos a escolher cantos com letras condizentes com a ação sagrada e com a índole do dia ou do tempo, para melhor cantar a Liturgia da Missa na Quaresma. Mas o que dizer em relação às músicas que estarão associadas a essas letras?

TRANSFORME SEU MINISTÉRIO DE MÚSICA, TEATRO E DANÇA EM CINCO DIAS

É certo que, desde que dotadas das qualidades requeridas, “a Igreja aprova e aceita no culto divino todas as formas autênticas de arte”. Mas a música dos cantos deve ser santa. E “será tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à ação litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como fator de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas”32. Deve interpretar e expressar o sentido profundo do sagrado texto ao qual está intimamente unida, sendo capaz de acrescentar maior eficácia ao mesmo texto, para que os fiéis melhor se disponham para acolher em si os frutos da graça que são próprios da celebração dos sacrossantos mistérios. E essa plena adesão aos textos que apresenta deve ser de forma singela, ou seja, sem rebuscamentos e complicações formais desnecessários ou até mesmo inoportunos. Deve poder ser cantadas não só pelos grandes coros, mas se adaptar também aos pequenos e favorecer uma ativa participação de toda a assembleia dos fiéis33. E a música deve estar em consonância com o tempo e o momento litúrgico a que está destinada e ter adequada correspondência aos gestos que o rito propõe.34

E como seria uma música em consonância com o tempo da Quaresma?

Não há prescrições rígidas aqui. Mesmo porque a adequação ao tempo estará modulada pelas adequações ao sentido do texto, ao momento litúrgico e à cultura da assembleia cantante. Mas é certo supor que, se será uma música destinada a acompanhar um tempo privilegiado “para como que retirar-se, buscar o silêncio, orar mais, ouvir atentamente a Palavra, penitenciar-se, dispor-se ao combate espiritual, rever a própria vida, converter-se...”, como foi dito lá no início, provavelmente essa música naturalmente assumirá um caráter mais introspectivo, dando mais espaço, inclusive, ao próprio silêncio.

E, de fato, dentre suas especificidades, temos que, no tempo da Quaresma, não se recita ou se canta o Glória, a não ser “nas solenidades e festas e ainda em celebrações especiais mais solenes”35.

Para a Aclamação antes da proclamação do Evangelho, rito através do qual, a assembleia dos fiéis “acolhe o Senhor que vai falar no Evangelho, saúda-o e professa sua fé pelo canto”, “no Tempo da Quaresma, no lugar do Aleluia, canta-se o versículo antes do Evangelho proposto no lecionário.” 36  Mas, caso haja apenas uma leitura antes do Evangelho, “no tempo em que não se diz o Aleluia, pode haver um salmo e o versículo antes do Evangelho ou somente o salmo.”37

E o toque do órgão e dos outros instrumentos é permitido somente para sustentar o canto, excetuando-se, porém, o domingo "Laetare" (IV da Quaresma), as solenidades e as festas.38

Assim, com todos esses critérios na mente e no coração, preparemos, pois, como Igreja, com toda nossa dedicação e amor, o ambiente sonoro para nossas celebrações quaresmais, tal como outrora Pedro e João prepararam a ceia pascal onde o Cristo Senhor instituiu o sacrifício do seu Corpo e Sangue.39

Que o Espírito Santo nos conduza!

E que a alegria do Senhor seja a nossa força!

TRANSFORME SEU MINISTÉRIO DE MÚSICA, TEATRO E DANÇA EM CINCO DIAS

 

Por Maestro André Zamur, Membro da Comunidade Recado.

 

 

Referências

1. NUAL (Normas Universais do Ano Lituúrgico), 3;

2. SC (Sacrosanctum Concilium), 102;

3. CIC (Catecismo da Igreja Católica), 1171;

4. CIC, 540;

5. NUAL, 18;

6. NUAL, 19;

7. Código de Direito Canônico, 206;

8. CIC, 1233;

9. NUAL, 18;

10. Cerimonial dos Bispos, 249;

11. NUAL, 28;

12. Cerimonial dos Bispos, 249;

13. NUAL, 29;

14. NUAL, 30 e 31ª;

15. NUAL, 31b;

16. SC, 109;

17. Motu Proprio Tra Le Solicittude, São Pio X, 9;

18. CIC, 1125;

19. CIC, 1124;

20. SC, 22;

21. IGMR, separata da 3ª ed., 366;

22. IGMR, separata da 3ª ed., 48, 51,74, 87e 88;

23. SC 121c;

24. SC 24;

25. CIC, 1122;

26. Pastoral da Música Litúrgica no Brasil – CNBB- Doc 07;

27. Cerimonial dos Bispos, 251;

28. Hino da Campanha da Fraternidade e cantos quaresmais, Conselho Episcopal de Pastoral, Brasília-DF, 06/03/2006;

29. SC, 116;

30. IGMR, separata da 3ª ed, 48 e 87;

31. ILM (Introdução ao Lecionário da Missa), 10;

32. SC, 112;

33. SC, 121;

34. Quirógrafo do sumo Pontífice João Paulo II no centenário do Motu Proprio Tra Le Sollecitudini sobre a música sacra, L’Osservatore Romano, nº 5

35. IGMR, 53;

36. IGMR, 62;

37. IGMR, 63;

38. Cerimonial dos Bispos, 41;

39. Lc 22, 8-13.

 

 

 TRANSFORME SEU MINISTÉRIO DE MÚSICA, TEATRO E DANÇA EM CINCO DIAS