De faxineira com pouca escolaridade à universitária

De faxineira com pouca escolaridade à universitária

Nasci em uma família excessivamente pobre, do extremo norte da Bahia. Meu pai, um homem quilombola, pobre e nordestino, nunca estudou, porque desde cedo trabalhava numa rotina desumana, na roça. Minha mãe pouco estudou, desde sete anos, trabalhava cortando sisal (planta de cultivo em regiões semiáridas, utilizada para fins comerciais). Morávamos em casa de pau a pique de favor. Por vários anos, passamos fome. Fui à escola pela primeira vez aos cinco anos, mas a vida já me alfabetizava desde cedo. Eu era a única criança da turma e não conseguia acompanhar o método de ensino da professora. Só aprendi a ler e escrever depois dos 10 anos.

Eu e meus dois irmãos ajudávamos nossa mãe nos afazeres de casa, carregando balde de água na cabeça, assim também como feixe de lenha. Em casa, não tinha energia elétrica. A noite era iluminada à luz do candeeiro. Nunca tivemos conforto, mas não éramos infelizes. A vida começou a me bater muito cedo. Nunca dormi em um berço. Nunca tive uma boneca. Já peguei coisas no lixo para usar. Minha ingenuidade da infância foi roubada na luta pela sobrevivência. Vendia umbu (fruta azeda tradicional do nordeste) na feira com minha mãe e minha vó. Sofria bullying e apanhava na escola por ter olhos verdes. Isso me fez odiar a escola e repeti a segunda série por cinco anos.

Na adolescência, para ajudar em casa, trabalhava na cidade como empregada doméstica, babá e até como faxineira. Era escravizada pelo serviço e ganhava mal. Era pesado conciliar o trabalho com os estudos. Já cursava o Ensino Médio, mas não tinha sonhos, não alimentava metas na vida, não tinha perspectiva de um bom futuro. No fundo, no fundo, eu queria ser jornalista, mas eu escondia este desejo porque as pessoas não acreditavam em mim.

Em setembro de 2012, meu pai descobriu que estava com trombose. Foi uma luta dolorosa pela saúde dele. Era mais intensa porque em minha cidade nem hospital existe. Tínhamos que ir toda semana para outro estado, de ambulância. Às vezes, ele ficava internado apenas numa cadeira, gemendo de dor, e eu não podia fazer nada. Não basta ser pobre, tem que passar por este tipo de humilhação (mas eu não sou “coitadinha”, nenhum filho de Deus é "coitadinho"). Aquele sofrimento era longo, exausto, ele sofria muito, mas eu tinha a esperança de que ele sairia daquela complicada situação. No entanto, em dezembro do mesmo ano, ele se foi. Quase fui junto com ele. Ainda hoje, eu não acredito que ele partiu. Meu pai sofreu tanto na vida, e seus últimos dias foram insuportáveis, não precisava tudo aquilo. Como eu não me permiti ser enterrada junto com ele, precisava de algum amparo para não perder o sentido da vida. Foi então que resolvi lutar pelo maior sonho que tenho, o qual estava enterrado há muito tempo lá no cerne da minha vida. Havia até esquecido que ele existia dentro de mim, porque as pessoas diziam que eu não iria realizá-lo.

Decidi ir embora da minha cidade. Afinal de contas, eu não tinha emprego, nem boa expectativa de futuro. Tomei a decisão de deixar minha terra para vir atrás do meu futuro. Em uma quarta-feira, noite do dia 20 de fevereiro de 2013. De ônibus, eu deixei minha mãe e meus irmãos, para vir buscar meu sonho. A saudade de casa e do meu pai eu trazia comigo. Cheguei ao Rio de Janeiro com “a cara e a coragem” de vencer na vida. Sem nenhum parente, precisava começar do zero e não ser atingida pela violência da cidade grande. Fui morar num pensionato administrado por freiras, com mais de 100 jovens, todas estudantes.

Consegui emprego e passei no vestibular de jornalismo na segunda melhor universidade privada do estado do Rio de Janeiro. Quem diria que eu chegaria até aqui, não é mesmo? Minha escolha mudou minha história e me deu novo destino. Como a escolha faz a diferença!

Estou compartilhando isso com vocês para dizer que NADA É IMPOSSÍVEL. Se deu certo para mim, então pode dar certo para qualquer pessoa. Tudo tem um tempo determinado por Deus. Vale a pena investir nos sonhos. Meu maior sonho na terra me trouxe até aqui. Fui estrategista e criei oportunidades, não fiquei esperando as coisas caírem do céu. Não sou o pedreiro que se tornou Advogado, mas sou a faxineira, negra, pobre e nordestina que, em poucos dias, se tornará Jornalista.

Não sei como será meu futuro. Ele está nas mãos de Deus. Como sou protagonista da minha própria história, escolhi vencer pelo caminho da educação, com honestidade, sem puxar o tapete de quem quer que seja, sendo feliz e realizando minhas tarefas com amor. Meu nome é SUPERAÇÃO e a minha trajetória até aqui já pode ser considerada um SUCESSO!!!


Por Jill Muricy.