Artista, você está disposto a ser barro nas mãos do Oleiro?

Artista, você está disposto a ser barro nas mãos do Oleiro?

“Como o barro na mão do oleiro, assim estais vós em minha mão” (Jr 18, 6)

Para que um artesão desempenhe bem seu trabalho, é necessário que ele conheça bem o material utilizado. Para aqueles que trabalham a massa, o tempo dedicado a modelagem lhe traz a intimidade com o que faz. Um bom artesão que dedicou muitas horas ao seu ofício conhece em detalhes as possibilidades da massa.  Mais que isso: sabe como se portar diante das controvérsias. Sabe como torná-la macia, maleável. Sabe o que fazer com as marcas que aparecem durante a modelagem. Sabe como consertar as eventuais rachaduras. Porque conhece, respeita o tempo da massa: às vezes, tem que agir rapidamente, para que ela não seque e todo seu trabalho se perca. Outras vezes, se faz necessário aguardar a secagem da massa para acrescentar outros detalhes. Caso contrário, toda a peça se deformaria e perderia sua beleza. O artesão sabe também qual deverá ser o peso de sua mão ao trabalhar a massa. Em determinadas situações ele deverá ser delicado, para não vir a perder toda sua obra. Em outras ocasiões terá que ser firme, apertar e modelar com força. Mas, por intimidade, ele sabe que a massa aguenta, pois seu tempo de secagem foi respeitado.

Da mesma forma como o artesão conhece a massa, Deus, que modelou o mundo, conhece o “material” com que trabalha. Sabe o tempo certo e a melhor forma de agir. Porque nos conhece, Ele sabe que por vezes terá que ser firme, nos modelar com força. Em outras situações, Sua mão será leve ao nos tocar. Como uma peça em que a maior parte do trabalho foi finalizada, assim Deus age conosco: tirando marcas, consertando rachaduras, acrescentando pequenos detalhes que nos farão, a cada dia, mais parecidos com Aquele que plasma em nós o Seu Amor, pois “o artista, quando modela uma obra, exprime-se de tal modo a si mesmo que o resultado constitui um reflexo singular do próprio ser, daquilo que ele é e de como o é”1.

Ao nos deparamos com o imenso Amor daquele que nos toma em Suas mãos como massa crua e dessa matéria esculpe-nos como Sua imagem e semelhança, nos resta deixá-Lo trabalhar com toda a liberdade que o artesão tem com sua arte, revelando a beleza de sua obra e cuidando de nossos detalhes. Como Artesão por excelência, Ele sabe como agir.

 

1.  Nº 2 da Carta do Papa João Paulo II aos Artistas. 1999.


Toma-me em Tuas mãos

Modela-me em Teu Amor

Tira as marcas que deformam a beleza

Torna-me o que o Teu Coração sonhou

Estampa em mim o Teu olhar

Desenha em mim o Seu sorriso

Transborda em mim a Sua graça

Transfigura em mim o Seu Amor

E planta meus pés em Seu Paraíso

Cuida de mim enquanto a matéria apura

Cerca-me no momento oportuno

Ausenta-te o tempo que for necessário

Para que eu esteja pronta,

Firme como aço

Se for preciso,

Distancia-te, cala-te

Sei que me conheces

E me amas na ausência

Faz o que for necessário

Toma a ferramenta que precisar

Coloca-me onde quiser

Como quiser

Meu desejo é nada desejar

Meu direito é viver sob Sua justiça

Minha dignidade e liberdade

São a minha escravidão

Ser como objeto em Suas mãos

O desejo de possuir Seu Amor

Obriga-me, arrasta-me ao abandono

Minha alegria é a certeza

De que tu és o artesão

Eu, simples massa

Que nada reclama para si

Nada deseja

A não ser estar

Em Sua presença

Sendo modelada, mesmo no silêncio

Pois Seu Amor não faz alardes

Estar em Ti e me abandonar

Somente isso já me basta

 

Texto e poesia de Thiana Thomaz Rolim, Membro da Comunidade Recado.

 

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