A VERDADE QUE LIBERTA!

A VERDADE QUE LIBERTA!

Não existe nada mais libertador do que ouvir de alguém que você não é tão bom quanto você acredita. Foi uma das experiências artísticas mais fortes para mim, perceber que o caminho a ser traçado ainda era longo, perceber que na verdade esse caminho não termina. Enquanto há vida, há crescimento na arte. Enquanto artistas é importante sempre renovarmos essa verdade no nosso coração. Nunca se é tão bom que não se possa melhorar! Não falo daquela falsa humildade do artista que não consegue reconhecer seus dons e talentos. Nossos dons e talentos são reais e precisamos sim reconhecer que eles existem e louvar e bendizer a Deus todos os dias por Ele se utilizar daquilo que nós somos para levar pessoas até Ele. Isso é real, necessário e importantíssimo para a mãe Igreja. O pecado é quando esquecemos das nossas limitações e nos perdemos em nós mesmos, acreditando que somos bons demais para recebermos críticas ou correções. E mais uma vez eu repito: é libertador quando alguém tem a coragem de dizer o quanto você ainda precisa crescer!

 

            “Soberba é uma manifestação de orgulho, de pretensão, de superioridade sobre as outras pessoas. É a arrogância, a altivez, a autoconfiança exagerada. Soberbo é aquele indivíduo considerado orgulhoso, altivo, que está dominado pela arrogância.”[1] Mesmo sendo tão contrário a arte, o pecado da soberba é mais natural do que se pensa no mundo artístico. E pasmem! Na Igreja não deixa de ser diferente! Aos poucos vamos nos acostumando com os elogios que alimentam a nossa carência e vamos nos enchendo deles e como ovelhas gordas, vamos perdendo nossa mobilidade e nos paralisando e esquecendo de crescer. A arte não “passa a mão na nossa cabeça”, enquanto artistas sabemos muito bem o quanto temos que batalhar para chegarmos a um nível de reconhecida qualidade. E por qual motivo nos perdemos e nos esquecemos dessa batalha achando que já alcançamos um nível de excelência tal que somos isentos de qualquer crítica ou possibilidade de crescimento?

 

            Em 2012 fui em missão para a França acreditando que seria a salvação daquele país. Tinha certeza que era uma excelente atriz, cantora, dançarina e iria ser essencial para o crescimento daquela missão. Pobre de mim! Certamente eu tinha muito a ensinar, apenas esqueci o quanto eu ainda tinha que aprender. Ouvi com todas as letras uma amiga, excelente artista, dizer-me: “você ainda tem muito o que crescer”. Palavras ditas com tanta verdade e amor que me feriram. E que ferida necessária! Não podemos esquecer que o pastor muitas vezes fere suas ovelhas para resgatá-las. Uma ferida de amor. Uma ferida que não mata, mas pelo contrário, cura, salva e liberta. Naquele momento experimentei da verdade que liberta. E hoje evito com muita luta a paralisia artística. O diretor teatral Grotowski diz que “anos de trabalho (...) nos permitem de descobrir às vezes o início da nossa via artística”.[2] Anos de trabalho nos permitem descobrir o início do que é ser um artista. Anos de trabalho... e o teórico ainda precisa bem: às vezes! Deixemos então essa soberba de lado, aceitemos, críticas, correções e considerações aproveitando cada uma delas para o nosso crescimento e para o engrandecimento da nossa missão.

 

Por Débora Moreira, consagrada da Comunidade Recado.



[1] https://www.significados.com.br/soberba/.

[2] GROTOWSKI, Jerzy. Vers un Théâtre Pauvre. Lausanne : L’Age d’Homme, 1971. p. 15.